
A importância da integração da América Latina foi reforçada na segunda-feira (23), o primeiro dia da 8ª Reunião Conjunta das Redes Sindicais dos Bancos Internacionais (HSBC, Santander, BBVA, Itaú e Banco do Brasil), em Montevidéu. Dirigentes sindicais de vários países, onde essas instituições financeiras atuam, participam dos debates que continuaram nesta terça-feira (24) e se estendem até quinta-feira (26), na capital do Uruguai. O evento é promovido pela UNI Américas Finanças.
“Os trabalhadores do Banco do Brasil conquistaram em 2011 o Acordo Marco, que busca trazer melhores condições de trabalho aos bancários do BB em todo o mundo. O nosso desafio atual é forçar o cumprimento desse acordo por parte da empresa. Só a articulação dos sindicatos dos diferentes países pode garantir esse objetivo, da mesma forma como foi essa união que proporcionou a luta que resultou na assinatura do acordo marco, inédito nas Américas”, frisa Rafael Zanon, secretário de Assuntos Jurídicos do Sindicato, que participa do encontro.
“Estamos reunidos com bancários do Santander de toda a América e também da Espanha. Nosso objetivo é traçar estratégias de ação organizada e conjunta dos sindicatos desses diversos países contra os abusos cometidos pelo banco”, explica Rosane Alaby, secretária de Imprensa do Sindicato, que também participa da reunião.
Abertura
A mesa de abertura do encontro contou com a participação do presidente da Contraf-CUT e da UNI Américas Finanças, Carlos Cordeiro, do diretor regional da UNI Américas Finanças, André Rodrigues, e do presidente e secretário-geral da Associação dos Empregados Bancários do Uruguai (AEBU), Gustavo Pérez e Fernando Gambera, respectivamente. Eles enfatizaram a necessidade de atuar cada vez mais conjuntamente na América Latina para defender os direitos dos trabalhadores e ampliar as conquistas.
Cordeiro defendeu mais organização, mobilização e negociação para defender os interesses dos trabalhadores. "Enquanto há um ataque aos direitos da classe trabalhadora na Europa, setores conservadores na América Latina estão se utilizando da crise internacional para fazer terrorismo e ameaçar os trabalhadores", alertou.
O dirigente da Contraf-CUT também denunciou a política desumana dos bancos internacionais. "O HSBC sai de um país para outro atrás de resultados, sem compromisso com a população. Persegue trabalhadores e dirigentes sindicais", frisou.
Ele lembrou a denúncia feita na última quarta-feira (18), em Curitiba, sobre a espionagem de 164 bancários afastados por motivo de saúde. "Entregamos a denúncia ao ministro do Trabalho e Emprego, Brizola Neto, que prometeu investigar o caso".
O sindicalista ainda denunciou o Itaú que, no processo violento de demissões, fechou cerca de 8 mil postos de trabalho em um ano, o que é inaceitável para o banco privado que mais lucra no Brasil. "Não adianta ter crescimento econômico com aumento real de salário, se continuar essa política de rotatividade dos bancos", apontou.
O diretor da UNI enfatizou que o segundo semestre deste ano será de muito trabalho, com a realização das conferências de jovens e mulheres e a própria conferência da UNI Américas Finanças em 1º e 2 de dezembro, em Montevideo.
O presidente de AEBU destacou com orgulho que é a primeira vez que se realiza no Uruguai uma reunião de redes sindicais. Para Gustavo Pérez, os bancários devem manter uma participação e uma discussão permanente, buscando "possibilidades de crescimento e desenvolvimento dos povos".
Já o secretário-geral da AEBU se referiu ao papel que jogam os trabalhadores que, na maioria das vezes, "carregam sobre os ombros" o peso das medidas que os governos aplicam diante das crises, como no caso da Espanha. Fernando Gambera defendeu "a necessidade que tem o movimento sindical latino-americano de definir estratégias para fazer frente às situações de futuro".
Integração da América Latina
O vice-chanceler da República do Uruguai, Roberto Conde, fez uma apresentação focando a conjuntura econômica da América Latina, destacando a importância dos processos de integração em andamento, como o Mercosul e a Unasul, e apontando os desafios para os países. "O caminho do desenvolvimento é a integração latino-americana", disse.
Em relação ao golpe branco do presidente Fernando Lugo no Paraguai, ele disse que o processo é muito dinâmico. "Não há sanções econômicas, mas somente uma decisão política de afastamento do Mercosul. Se houver diálogo, não há risco de ruptura", disse.
O secretário de relações internacionais da Contraf-CUT, Mário Raia, questionou o representante uruguaio sobre a pequena participação das centrais sindicais nas decisões do Mercosul.
Conde disse que "as centrais já compreenderam a visão estratégica do processo de integração, o que é importante. O diálogo é fundamental entre governos e o movimento sindical".
Unasul e Banco do Sul
O embaixador e representante permanente do Brasil na Aladi e no Mercosul, Ruy Carlos Pereira, chamou a atenção de que "a globalização é uma abertura forçada pela indústria" e que "estamos assistindo uma reinvenção do capitalismo".
Para ele, o processo de integração na América Latina é diferente da União Europeia. "Lá foi para evitar uma guerra, aqui o que se busca é a integração", comparou.
Pereira explicou o que é o FOCEM (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul). "Trata-se de um instrumento destinado a financiar projetos nacionais ou pluriestatais", disse. Foi ciado em 2004 e é o único mecanismo regional de financiamento de projetos com recursos doados, hoje em torno de 100 milhões de dólares.
Também foi destacado o papel do Banco do Sul, fundado em 9 de dezembro de 2007 por Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela, com sedes em Caracas e Buenos Aires e subsede em La Paz.
"É o banco de desenvolvimento da Unasul com o objetivo de proporcionar o desenvolvimento econômico, social e ambiental dos países membros, com financiamento para projetos no âmbito territorial da Unasul em diversos setores", frisou.
Segundo o embaixador, "é uma entidade financeira de direito público internacional, com personalidade jurídica própria, sem dinheiro dos bancos privados". O banco ainda não está operando. O início dos aportes está previsto para abril de 2013.
Questionado sobre a participação da sociedade civil, Pereira afirmou que "o diálogo é fundamental". Na sua avaliação, "o diálogo tem condições variáveis com os todos os segmentos e há diversas experiências".
"A Unasul ainda não tem resultados palpáveis, diferente do Mercosul, que já possui avanços nas relações de comércio e na questão do trabalho decente", concluiu Pereira.
Sistema financeiro
Os trabalhos do primeiro dia foram encerrados com uma apresentação da AEBU sobre a situação do sistema financeiro na América Latina. Enquanto na década de 90 houve um aumento da participação dos bancos estrangeiros no total dos ativos, de 11% para 31% entre 1995 e 2000, ocorreu uma redução na primeira década deste século, diminuindo de 40% para 35% entre 2008 e 2010.
Foi destacado o ingresso a partir de 2000 do Santander e do BBVA na região, especialmente no Brasil e no México, bem como a expansão de bancos de alguns países latino-americanos, como o Itaú.
Entre os desafios e oportunidades, a AEBU apontou a importância dos bancos públicos, que tem cumprido papel estratégico no enfrentamento da crise internacional.
Da Redação com Contraf-CUT
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