
‘A relação entre Sindicato, Partido, Governo e Estado’ foi tema do Brasília Debate realizado na noite desta quinta-feira (10) no Teatro dos Bancários. Discutido à exaustão por mais de três horas, o assunto foi analisado profundamente pelo ex-ministro chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República Luiz Dulci e pelo secretário nacional de Organização da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Jacy Afonso. “O movimento sindical não deve sustentar politicamente o governo”, afirmou Dulci, ao lembrar que a CUT deve cumprir seu papel mantendo autonomia.
Após essa afirmação, o ex-ministro citou conversa com uma trabalhadora do Pará há alguns anos: “Ela veio me dizer que não imaginava que precisava se mobilizar durante um governo eleito pelos trabalhadores”. Atônito, Dulci contou que respondeu com veemência: “é justamente porque é um governo democrático de coalisão que precisamos unir forças e nos mobilizar”.
Transformação social
Fundador da CUT e diretor do Instituto Lula, Dulci observou que os sindicatos são potencialmente sujeitos políticos. “Isso não é ruim, pois o papel dessas instituições não devem se limitar à luta por melhores salários e condições de trabalho”, sustentou. “A função de um sindicato é ampla”, acrescentou.
Formado em Letras Clássicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o ex-ministro ressaltou que a criação do PT e da CUT está ligada a um processo global de transformação social. “Após a intensa mobilização da CUT, o orçamento da agricultura familiar passou de R$ 2,5 bilhões em 2002 para aproximadamente R$ 17 bilhões neste ano”.
Ex-responsável pela interlocução política do governo Lula com as organizações e movimentos da sociedade civil brasileira e internacional, Luiz Dulci ainda citou a política de salário mínimo como uma grande conquista do movimento sindical. “Sem as marchas e a grande mobilização dos trabalhadores, é bem provável que essa política não tivesse saído do papel”, assegurou.
Apesar dos elogios, Dulci salientou que o movimento sindical abandonou algumas lutas da organização do trabalho. “Em virtude da economia globalizada, é compreensível que isso venha ocorrendo, uma vez que a luta pelo salário já foi decidida quatro anos atrás”, justificou.
Professor de Língua e Literatura Portuguesa desde 1974, especializado em educação de adultos, Dulci foi fundador e primeiro presidente (1979/82) da União dos Trabalhadores do Ensino de Minas Gerais. Junto com o então líder metalúrgico Lula e outros dirigentes sindicais foi um dos coordenadores do movimento que levou à fundação, em 1983, da CUT. Dirigente nacional do PT desde sua fundação, em 1980, foi um dos coordenadores da campanha eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.
Coincidência
Integrante do Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do Comitê Gestor do Fundo de Investimentos do FGTS, e vice-presidente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Jacy Afonso iniciou sua intervenção afirmando que parece ser uma coincidência a fundação do PT e da CUT na mesma época. “Mas a história do movimento sindical não é só a CUT e o PT”.
Ex-presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, no período de 2004 a 2007, Jacy Afonso classificou a década de 1980 como extraordinária. “Em 1981, foi realizado a legítima e verdadeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat). Em 82, ocorreu a eleição para governador. No ano seguinte foi fundada a CUT. Em 84, nasceu o MST e surgiu o Movimento pelas Diretas Já. Em 85, o fim da ditadura militar via colégio eleitoral”, citou.
À época (década de 1980), de acordo com Jacy Afonso, o movimento sindical ocupava o papel dos partidos políticos. “A maior prova disso é que o Lula, então líder sindical, por pouco não foi eleito presidente da República”, recordou.
Já em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente, o movimento sindical sofre grande ataque do neoliberalismo, citou Jacy Afonso. “No Banco do Brasil, por exemplo, os bancários receberam zero de reajuste e as greves não existiam”.
“Durante o governo Lula, fizemos greve, conquistamos aumento real de salário e avançamos nas conquistas”, observou.
Por uma CUT-DF independente e combativa

O Brasília Debate foi mediado pelo presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, Rodrigo Britto. “Extremamente relevante, o tema foi debatido com muita competência por Jacy Afonso e Luiz Dulci”, destacou Britto, que também é diretor da CUT-DF.
“O Sindicato, que não foge do debate e das lutas, entende que o assunto é pertinente para algumas lideranças sindicais locais. Eles esqueceram suas raízes e agora dão total apoio ao governo local. Não é esse tipo de conduta que queremos para a CUT-DF. A Central deve ser independente, combativa e solidária”, frisou Rodrigo Britto para uma plateia composta por mais de 200 bancários, dirigentes e militantes sindicais de outras categorias e lideranças de movimentos sociais do Distrito Federal e Entorno.
Ex-presidente da CUT-DF, José Zunga, que também havia sido convidado, perdeu o voo para Brasília e não pôde participar do debate.
O projeto
O Brasília Debate é um espaço que o Sindicato coloca à disposição da categoria bancária e dos brasilienses para a discussão de ideias sobre os temas relevantes da contemporaneidade. É realizado na sede do Sindicato sempre com a participação de intelectuais e personalidades de destaque da vida cultural, política, econômica e social do país.
Rodrigo Couto
Do Seeb Brasília
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