Sou sócio-diretor de uma empresa de pequeno porte, que no último ano cresceu muito rápido. Precisei fazer várias contratações nesse período e também promovi alguns profissionais que se destacavam. Uma das executivas, porém, mostrou-se muito autoritária ao assumir, há poucos meses, o cargo de gestora. Duas pessoas já pediram demissão e sei que a equipe dela está incomodada com seu jeito às vezes grosseiro. Não gostaria de demiti-la porque ela é uma ótima profissional. Além disso, sei que tenho parte da culpa, pois não usei nenhum tipo de avaliação formal para preencher a vaga. Devo investir em um treinamento comportamental, retirá-la desse cargo antes que apareçam mais problemas ou uma conversa franca resolveria?
Sócio-diretor, 46 anos:
Resposta:
O comportamento autoritário pode ter inúmeras causas. Em um espectro amplo de possibilidades, pode ir do extremo da insegurança ao extremo da personalidade opressora de fato. Um estudo recente mostra que as organizações contemporâneas, no afã de produzir resultados a qualquer custo, concentram em seus quadros de gestores mais psicopatas do que se encontra estatisticamente representado na população em geral.
Ou seja: alguns processos seletivos estão dando preferência a esse perfil.
Qualquer que seja o caso, é difícil imaginar que uma conversa franca resolva - embora não devamos subestimar a força de um bom feedback e a capacidade de algumas pessoas de rever as suas práticas.
Pode ser que a pressão derivada da responsabilidade pelo resultado de outras pessoas tenha produzido esse tipo de resposta. Pode ser também que ela esteja simplesmente tentando responder às suas expectativas e, por falta de treinamento, tenha imaginado que esse seja o caminho mais efetivo.
Existem excelentes cursos de formação de lideranças no mercado, bem como soluções de coaching que têm funcionado para algumas pessoas.
A maior dificuldade, no seu caso, me parece ser o tamanho da empresa. Até onde uma empresa de pequeno porte consegue arcar com os custos do desenvolvimento de executivos é algo que só você pode estimar. Eu tentaria começar com uma conversa franca. Como a causa do comportamento autoritário pode ser insegurança, desejo de acertar, ou ambas as coisas, eu teria muito cuidado com o tom.
Nesses casos, apontar o problema como oportunidade de crescimento e oferecer suporte e parceria para descobrir a melhor maneira de trabalhar com a equipe pode ser mais efetivo do que simplesmente apontar os erros e ameaçar com uma eventual perda do cargo. Depois, acompanhe de perto os esforços de mudança e o resultado junto à equipe. Se você perceber que ela está tentando ir na direção correta, pode estimulá-la fornecendo livros e artigos sobre liderança que a ajudem a compreender o seu novo papel.
Se mesmo com a conversa franca e com o suporte e da literatura especializada o comportamento persistir, será realmente necessário tirar a pessoa do cargo. Chefes autoritários ameaçam a sustentabilidade das organizações de várias formas. Eles criam um clima de medo nas equipes e isso aumenta as defesas, reduzindo a propensão ao risco de tal forma que as pessoas acabam evitando se expor mesmo quando isso resolveria problemas persistentes ou abriria uma oportunidade de inovação.
Os talentos são os primeiros a ir embora. No limite, esses indivíduos criam passivos trabalhistas. Entrevistas com pessoas que foram demitidas revelam que a principal motivação para levar à empresa aos tribunais é o desejo de se vingar do líder direto por motivos como assédio moral, por humilhação, por falta de reconhecimento, por perseguição, injustiça e outros. Uma empresa de pequeno porte tem, naturalmente, mais dificuldade de sobreviver a esse tipo de problema.
Existem pessoas perversas. Essas não mudam. É importante identificá-las e neutralizá-las para que não causem danos à empresa. Você, como líder dessa organização, precisará avaliar as perdas e os ganhos com cada alternativa.
Marco Tulio Zanini é professor e coordenador do mestrado executivo em gestão empresarial da Fundação Getulio Vargas do Rio e consultor da Symballein
Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações. As perguntas devem ser enviadas para:
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Fonte: Valor Econômico
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