
O empregado da Caixa Econômica Federal Luiz Felipe Fagundes doou parte do valor que recebeu do acordo com o banco sobre a 7ª e 8ª horas, viabilizado pela instalação da Comissão de Conciliação Voluntária (CCV) no Sindicato, ao Orfanato Filhas de Maria, localizado em Planaltina de Goiás, distante cerca de 50 quilômetros de Brasília. Na quarta-feira (4), os dirigentes sindicais Louraci Morais e Antonio Abdan entregaram a doação à irmã Ursula Galecka, diretora da instituição.

Fundado no ano 2000 pela irmã Marianna Mierzejewska, o orfanato abriga atualmente 90 crianças e adolescentes de ambos os sexos. A instituição, que vem enfrentando sérias dificuldades financeiras, agradeceu a doação: “Em nome do Orfanato Filhas de Maria, agradeço a relevante ajuda financeira do Sindicato dos Bancários de Brasília e do bancário Luiz Felipe Fagundes”, disse Ursula Galecka, acrescentando que a instituição deve mais de R$ 6 mil somente de energia elétrica. “Não temos dinheiro para pagar a conta de luz, atrasada há mais de seis meses”.
Convidado a participar da entrega da doação, o empregado da Caixa não pôde comparecer. Bancário desde 1989, Luiz Felipe fez a doação ao Sindicato, que repassou o valor ao orfanato. “Decidi doar parte do valor que recebi do acordo da CCV das 7ª e 8ª horas em reconhecimento ao trabalho do Sindicato”, afirmou Luiz Felipe, que concordou prontamente com o repasse de sua doação à instituição de Planaltina de Goiás.
“Poucos sindicalizados e bancários conhecem esse lado ‘humano’ do Sindicato. Muitas pessoas de baixa renda necessitam de ajuda, e não devemos esperar somente a atuação dos governos. O Sindicato e nós temos que atuar de alguma forma”, acrescentou o empregado da Caixa.
Superação
Abandonada pelo pai quando tinha 9 anos, *Fernanda, 17, chegou ao Orfanato Filhas de Maria aos 11, após o Juizado da Infância da região constatar que sua mãe, que é alcoólatra, não tinha mais condições de criá-la. “Minha mãe é alcoólatra e colocava os filhos para pedir esmola em Brasília”, revelou a jovem, que é uma das mais antigas moradoras do orfanato.
A triste história da jovem afrodescendente de corpo franzino é a mesma de quase 40 mil crianças e adolescentes do país, segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O estudo apontou ainda que o número de meninos e meninas sem família no Brasil tem crescido e a quantidade de crianças e adolescentes vivendo em abrigos após o afastamento do convívio familiar ultrapassou a faixa de 37 mil em 2012. Esse número é superior ao registrado no ano passado, que na mesma época chegava a aproximadamente 30,5 mil.
Vítima de um grave acidente, a mãe de Fernanda sofreu queimaduras e ficou impossibilitada de trabalhar. Ela encontrou no álcool um ‘refúgio’ para suas dores. Fernanda conta que, como a mãe gastava todo o dinheiro da pensão com bebidas, os seis filhos pediam esmola na W3 Sul para ajudar no sustento da família. “Minha vida inteira pedi esmola”, confessou a adolescente.
Mesmo com todas as dificuldades, Fernanda é grata ao orfanato e não culpa a mãe. “Sou feliz aqui. Agradeço ao orfanato que me deu tudo que tenho na vida. E também pelas outras crianças e jovens que vivem aqui”, disse ela, que cursa o 2º ano do ensino médio, pretende estudar inglês e sonha em ter uma casa para unir toda sua família novamente.
‘Sonho em ser jogador de futebol’
Dois dias antes da entrega da doação ao Orfanato Filhas de Maria, *João, 10, chegava à instituição. Encaminhado pelo Juizado da Infância, o menino era agredido constantemente pelo pai. Abandonado pela família, é o mais recente morador do orfanato. “Ninguém da minha família me quis”, relatou a criança, com a consciência de um adulto. João, que tem mais três irmãos, sendo um gêmeo, é vascaíno e sonha ser jogador de futebol.
Durante a entregada da doação, a secretária de Assuntos com a Comunidade do Sindicato, Louraci Morais, parabenizou o orfanato pelo trabalho e disse esperar que a doação possa amenizar a crise financeira da instituição. “É com muito orgulho que entrego esse cheque, em nome do Sindicato e do empregado Luiz Felipe Fagundes, para ajudar a dar continuidade a esse trabalho sério que vocês vêm desempenhando desde 2000”. Também presente na entrega, o diretor do Sindicato Antonio Abdan elogiou a dedicação das religiosas que mantêm o orfanato.
Além de alimentação e moradia, o orfanato oferece aulas gratuitas de informática e assistência odontológica. Moradora do Guará, a dentista Rosângela Nascimento é a responsável pelo atendimento clínico do local. Voluntária há três anos, a dentista trouxe os equipamentos de sua clínica para uma sala do orfanato. “Engrandecedor, o trabalho voluntário muda a vida de qualquer pessoa”, observou. Segundo a profissional, cada criança e adolescente que chega ao orfanato necessita tratar dez dentes, em média.
O orfanato
A Associação das Filhas do Puríssimo Coração de Maria (Orfanato Filhas de Maria) abriga e atende diariamente cerca de 90 crianças e adolescentes de ambos os sexos, sendo que no decorrer de cada ano são acolhidas em torno de 250 crianças. Também presta ajuda a 20 famílias menos favorecidas.
É uma associação de religiosas católicas, sem fins lucrativos, que recebe as crianças encaminhadas pelos Juizados da Infância e Juventude da região. A associação não recebe recursos regularmente, dependendo da doação da Igreja e da caridade da comunidade.
Serviço
Quem quiser ajudar e/ou conhecer o Orfanato Filhas de Maria pode ligar para os telefones (61) 3637-4671 / (61) 9619-9820. A instituição fica na Quadra 20, lote 16, 17 e 18, Setor Leste, bairro Santa Rita, Planaltina de Goiás. E-mail: filhasdemaria@hotmail.com
*Nome fictício em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Rodrigo Couto
Do Seeb Brasília
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