Por Rafael Zanon*
Os bancários parabenizam as empregadas domésticas
Sou bancário e historiador de formação. A classe trabalhadora conquistou este mês a sua maior vitória desde a “abolição” da escravidão: as empregadas domésticas têm agora direito a jornada de trabalho.
Tenho 33 anos e nunca tinha vivido ou presenciado conquista tão importante para o conjunto da sociedade brasileira, e recebo essa vitória com uma alegria e com uma esperança: podemos e estamos construindo uma sociedade mais justa.
A reação da sociedade conservadora elitista
Em várias reuniões e assembleias de bancários de que participei já ouvi a seguinte frase preconceituosa e elitista: "o bancário está recebendo um salário de empregada doméstica”. Além de mentirosa, já que a média salarial do bancário é seis vezes maior que a delas, tal expressão carrega em si o preconceito de classe, resquício dos tempos da “casa grande” e tão presente em nosso meio.
Oxalá um dia podermos viver em uma sociedade em que as pessoas sejam remuneradas de acordo com a jornada laborada sem diferenciação de salário pelo tipo de serviço efetuado.
O início do fim das senzalas modernas
Com a vitória das trabalhadoras domésticas, mais uma violência foi abolida: agora elas têm jornada de trabalho definida e direito a horas extras. Esse importante avanço devia estar sendo comemorado por todos e todas. Mas, como era de se esperar, vários setores da sociedade elitista fazem coro com os herdeiros da casa grande, reclamando de que agora vão ter dificuldade em jantar no restaurante chique, não vão mais poder contratar a casa de festas para o aniversário de seu filho, vão ter que economizar na compra de seu whisky favorito, não vão poder ir à Disney, ou o que para eles é pior, vão ter que fazer o trabalho doméstico com suas próprias mãos.
É incrível a capacidade de cooptação do ser humano, como faziam os negros capatazes que perseguiam seus colegas escravos que buscavam a liberdade. A classe média conservadora e elitista deveria refletir nos benefícios que essas conquistas trarão para todos, no sentido de estarmos caminhando para uma sociedade menos injusta, portanto menos violenta.
A conquista da jornada das domésticas é vitória histórica de toda classe trabalhadora
O trabalho doméstico, fundamental para a sociedade em que vivemos, sempre foi menosprezado pelas elites. E isso acontecia não pelo fato de ser laboro fácil ou simples, e sim por não ter direitos como os outros.
As empregadas domésticas acumulam serviços culinários, cuidam dos filhos dos outros, têm necessidade de disciplina e esforço físico que muitos não são capazes de ter e que, por isso, as contratam. Se fosse um trabalho tranquilo, as empregadas domésticas não existiriam.
A conquista da jornada de trabalho iguala os direitos fundamentais das domésticas às outras categorias, fazendo com que essas profissionais possam ter mais orgulho de seu trabalho, que é tão ou mais importante que os outros. A importância também se faz para o conjunto dos trabalhadores. Com direitos semelhantes, as empregadas domésticas agora se juntam ao restante da classe trabalhadora para lutar por mais conquistas, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, o respeito à Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que proíbe a demissão imotivada, entre outras lutas.
Nas trincheiras das batalhas gerais da classe somam-se agora milhões de trabalhadoras, e essas vêm com a alto estima elevada e sabedoras de que a luta pode levar à conquista. Esse “reforço” fortalece o conjunto dos trabalhadores e nos traz mais condições para avançarmos.
Parabéns para as empregadas domésticas e para toda a sociedade brasileira.
*Rafael Zanon é diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília
Copyright © 2025 Bancários-DF. Todos os direitos reservados