A apresentação do monólogo Vozes da Abolição e o debate A Farsa da Abolição, no dia que marcou os 138 anos da promulgação da Lei Áurea, ocorrida no Teatro dos Bancários neste 13 de maio, marcaram a resistência contra o racismo e a violência que se abatem sobre a população negra brasileira, emocionando e fortalecendo a busca por um mundo de justiça social nas intervenções de Déo Garcez, Jessé Souza, Artur Antônio, da diretora sindical Adê Mire Ribeiro e do público presente.
Na hora marcada, o ator e diretor de teatro Déo apresentou o monólogo com a história de Luiz Gama, desde a infância, quando, aos 10 anos de idade, foi vendido no mercado de escravizados, passando pela ousadia de aprender escondido a ler e escrever, aos 17 anos, e dedicar-se a estudar as leis do Império que garantiam a legalidade da perversidade da escravidão, usadas para libertar o povo negro.
O ator mostrou a luta do advogado dos escravizados na defesa do povo negro, em um mundo sedento de liberdade, com os escravos unidos e lutando pelo fim da perversa relação que tornou homens, mulheres e crianças apenas uma engrenagem na estrutura econômica em um período compreendido entre 1530 e 1888, ou seja, em torno de 350 anos.
“A liberdade e a igualdade não são privilégios, mas sim direitos de qualquer pessoa”, disse Luiz Gama na voz de Déo, autor do texto, ator e diretor da peça, que mostrou a força da luta do advogado que libertou mais de 700 escravizados. Gama foi perseguido e atacado pelos senhores escravagistas. Ainda assim, não abandonou em nenhum momento sua dedicação em libertar os negros escravizados. Todo o trabalho realizado pelo advogado era gratuito, entregando-se totalmente à causa da liberdade e da justiça.
O texto representado por Déo utiliza-se dos escritos do advogado dos escravizados e possui uma atualidade assustadora, mesmo decorrido mais de um século de uma abolição que não se efetivou, ao deixar o povo negro, depois do 13 de maio de 1888, sem direito à terra, à educação, à moradia e enfrentando, até os dias atuais, o permanente ataque à sua dignidade.
Um debate que inspira o sonho de Luiz Gama
Mediado por Adê Mire Ribeiro, eleita para a nova diretoria do Sindicato dos Bancários, a mesa foi formada pelo ator e diretor Déo Garcez, pelo sociólogo e escritor Jessé Souza e pelo advogado, bancário e militante do Movimento Negro Unificado (MNU) Artur Antônio, os quais, após provocações de Adê, realizaram as exposições, levando a um intenso debate com o público presente.
O advogado Artur Antônio destacou a base jurídica da escravidão, que “teve um sistema jurídico muito bem elaborado. Ainda assim, Luiz Gama se utilizou desse mesmo instrumento para libertar os escravizados”. Artur fez todo um resgate do trabalho jurídico realizado pelo advogado dos escravizados, a partir da legislação que dava legalidade à escravidão, na defesa da liberdade. Ressaltou que assistir ao espetáculo “nos remete aos tempos atuais, já que a elite aceitou a abolição jurídica, mas saímos sem direitos, sem indenização, sem reconhecimento”. Como bancário, lembrou que “a naturalização do racismo está dentro dos bancos e em todos os lugares”, o que aumenta “a importância de se aquilombar, não perder sua identidade”.
O diretor teatral e ator que representou Luiz Gama, Déo, contou que começou no teatro aos 11 anos de idade, dedicando-se, nos últimos 49 anos, “ao teatro que me conscientizou e libertou”. Segundo ele, “o papel da arte é libertar e educar.” “O teatro e a arte de modo geral são instrumentos revolucionários”, destacou. Afirmou ainda que “o amor e a paixão pela arte transformam e dão consciência”. Para Déo, “o espetáculo Luiz Gama é um instrumento da luta antirracista”, especialmente diante do racismo estrutural. “O conhecimento liberta, por isso a promulgação da Lei Áurea não garantiu a educação, a terra, a leitura e a escrita. Através da educação e da cultura, podemos transformar”, falou diante de um público ávido por debater a conquista da dignidade plena para o povo negro e para todos os empobrecidos.
Para as elites, o negro é inferior, destaca Jessé
Para o sociólogo e escritor Jessé Souza, é preciso mostrar onde está atualmente a escravidão e como ela se manifesta na sociedade atual, 138 anos após a promulgação da Lei Áurea. Souza destacou que “está em tudo na nossa vida”.
“A própria cultura do golpe de Estado no Brasil é a estigmatização do voto dos negros, mestiços e pretos”, disse. “Os brancos nunca aceitaram os votos dos pobres e negros, nunca se acharam corruptos.” Ressalta que as elites nunca aceitaram as mudanças, pois "precisam do Estado para roubar”.
O sociólogo lembrou que “o discurso da elite contra a corrupção é uma farsa, pois se sustenta na corrupção”. Os dados mostram que a elite “quer manter o povo negro como serviçal, ao mesmo tempo em que seus filhos são formados para dirigir o Estado e preservar seus privilégios”.
“Isso tudo para retirar a moralidade da pessoa”, destaca Jessé, afirmando que, ao retirar a moralidade, “você a animaliza, você não tem empatia com ela, que passa a não ser igual a você”. Ressaltou que “a forma do poder político e social é montada no racismo”. “Substitui a cultura pela raça, estigmatizando o negro”, afirmou. Analisou ainda a postura política da elite, destacando que “100% da extrema direita é racista. O bandido não é Vorcaro, nem Paulo Leman: o bandido é preto, pobre, nordestino”.
Jessé fez uma análise sobre as diferenças regionais no Brasil. “72% dos brancos da região Sul nunca se consideraram povo, sentem-se europeus”, lembrando que os brancos pobres reproduzem esse discurso. “80% da população nordestina tem DNA africano”, o que leva aos ataques contra a população do Norte e Nordeste pelo fato de ter origem africana e indígena. “A política foi montada para matar negros e pobres”, assegurou. “A polícia não sai atirando na cabeça de branco; o negro é atacado a todos os instantes e a classe média aplaude”, como se vê diariamente na grande imprensa. “Bolsonaro e a extrema direita são a síntese desse sistema”, que, segundo Jessé mantém atualmente as mesmas características da escravidão, utilizando-se de novas fórmulas.
Um debate que alimenta a luta antirracista
Um dos temas destacados nas discussões foi a questão do reconhecimento. “O reconhecimento é natural para o indivíduo, enquanto o negro é jogado para não ter reconhecimento”, afirmou um dos participantes. Foram lembradas frases que se tornaram comuns ao longo dos anos, como “preto de alma branca” e “tem passagem?”, comuns no trato diário com a população negra.
O advogado Humberto Adami, presidente da Comissão Étnico-Racial do Rio de Janeiro, destacou que discutir a reparação e a abolição da escravidão “é uma tarefa que deve ser feita todos os dias, além do 13 de maio e do 20 de novembro”. Lembrou a história das lutas pela demarcação dos quilombos e a busca de espaço dentro do Estado, as quais estão ligadas a todas as lutas do povo negro no Brasil.
O poeta e doutor em Literatura Marcos Fabrício reforçou o tema da cordialidade como uma forma de branqueamento da sociedade, assim como Luiz Gama foi um dos precursores da imprensa brasileira.
Adê Mire Ribeiro destacou que o “branqueamento é adotar comportamentos e valores”. Garantiu que todas as pessoas que desejassem se manifestassem, o que ocorreu, reafirmando, no final da atividade, perto da meia-noite, o compromisso do Sindicato dos Bancários, que sempre esteve e estará ao lado da luta por justiça social e contra o racismo.
Pedro César Batista
Colaboração para o Sindicato
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