Ameaças à manutenção da mesa única, às cláusulas de saúde e recusa em discutir saídas para o endividamento da categoria. Esse foi o resumo da postura da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) nesta terça-feira (21), durante a quarta rodada de negociações da Campanha Nacional das Bancárias e dos Bancários.
O presidente do Sindicato e da Fetec-CUT/CN, Rodrigo Britto, e Antonio Abdan, também diretor do Sindicato, participaram da negociação. “A mesa de saúde não foi boa, não foram apresentados avanços e ficou para ser retomada na próxima semana, quando esperamos que a ganância dos banqueiros seja deixada de lado para cuidar do maior patrimônio que existe dentro dos bancos, que é a vida de cada bancária e bancário, que são quem produzem, que são quem atendem os clientes e quem inclusive fazem a lucratividade dos bancos”, avaliou Rodrigo Britto.
Para Abdan, o encontro foi marcado pela falta de disposição dos bancos em negociar. "Hoje tivemos uma negociação muito ruim, que praticamente não avançou. Desde o início, os representantes da Fenaban deram sinais de que não estavam interessados em negociar. Em vez de discutir as reivindicações da categoria, recorreram a subterfúgios para impedir o avanço dos debates", afirmou.
A coordenadora do Comando Nacional dos Bancários Juvandia Moreira também criticou a postura patronal. "Hoje tivemos uma negociação muito ruim, que não andou, porque a Fenaban não quis negociar. Iniciou o encontro ameaçando a manutenção da mesa única, com a tentativa de separar os bancos públicos dos privados. Nós não aceitaremos em hipótese alguma", destacou. "A mesa única protege tanto os trabalhadores de bancos públicos quanto os dos bancos privados, e é por isso que eles querem promover a divisão da categoria", completou.
Segundo Antonio Abdan, um dos principais episódios da reunião foi a tentativa de desqualificar a atuação do movimento sindical. "Os bancos superdimensionaram algumas atividades realizadas por sindicatos, alegando que elas estariam prejudicando o andamento das negociações. A partir desse argumento, chegaram a ameaçar retirar a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil da mesa única de negociação, uma tentativa clara de enfraquecer a unidade da categoria", observou.
A dirigente destacou que, graças à unidade histórica, a categoria foi capaz de se proteger dos ataques aos direitos nos governos Temer e Bolsonaro. "Anos antes desse período, no governo Fernando Henrique, não existia a mesa única. Naquela época os bancos públicos negociavam em separado, amargando anos de reajustes zero e ataques aos direitos", relembrou. "No governo Lula conquistamos a mesa única, que foi importante para proteger os bancários nos governos Temer e Bolsonaro, quando as estatais foram atacadas e ocorreram reformas que impactaram todos os trabalhadores", pontuou Juvandia.
Essa posição de separar a mesa única foi proposta pelo negociador da Fenaban, Adauto Duarte, que foi questionado, inclusive, pelos representantes dos bancos públicos presentes à mesa.
Endividamento da categoria
Na mesa de hoje, a Fenaban também apresentou resposta ao programa de juros reduzidos para bancários endividados, reivindicado pelo Comando Nacional na rodada anterior.
"Para justificar a negativa a este pedido, a Fenaban apresentou dados que não convenceram ninguém. Nós sabemos que entre os cinco maiores bancos existem taxas diferenciadas e eles poderiam adotar as menores dessas taxas para toda a categoria", apontou Juvandia Moreira.
"Enfrentar o endividamento também é uma medida de promoção da saúde. A pressão financeira se soma às exigências do ambiente de trabalho, agravando o estresse e ampliando os impactos sobre a saúde física e mental dos bancários", completou Neiva Ribeiro, também coordenadora do Comando Nacional.
A única proposta apresentada pela Fenaban para enfrentar o endividamento foi encerrar rapidamente a campanha nacional para antecipar o pagamento da Participação nos Lucros e Resultados (PLR).
Antonio Abdan criticou a postura dos negociadores. "Os bancos voltaram a menosprezar a realidade vivida pela categoria. Um dos representantes chegou a afirmar que dívida não é inadimplência, como se o fato de o trabalhador conseguir pagar suas contas significasse que não há problema algum, mesmo quando isso compromete sua qualidade de vida. Quando perguntamos quais soluções eles apresentariam, a resposta foi irônica: disseram para fecharmos logo o acordo, porque, com a PLR, os bancários poderiam quitar suas dívidas."
"Só que terminar a campanha depende dos bancos apresentarem uma boa proposta", arrematou Juvandia.
Saúde e condições de trabalho
Sobre a pauta da saúde, o movimento sindical destacou que, em 2024, a categoria bancária respondeu por 25% dos afastamentos acidentários por doença mental registrados pelo INSS. Os transtornos mentais representam mais da metade dos afastamentos da categoria.

"A Consulta Nacional dos Bancários 2026, realizada com quase 55 mil trabalhadores, confirma os dados do INSS e a preocupação do Comando Nacional em relação à saúde", destacou Mauro Salles, secretário de Saúde da Contraf-CUT.
Antonio Abdan ressaltou que os representantes dos bancos chegaram a negar a relação entre as condições de trabalho e o adoecimento dos bancários. "Apresentamos pesquisas e dados que demonstram o adoecimento provocado pelas metas abusivas e pelo modelo de gestão adotado pelos bancos. Mesmo assim, eles chegaram ao absurdo de afirmar que a cobrança excessiva por metas não adoece ninguém. E, diante da firmeza com que defendemos essa pauta, ainda ameaçaram retirar da Convenção Coletiva as cláusulas de saúde já conquistadas pela categoria."
No levantamento da Consulta Nacional, realizado entre abril e maio deste ano, 40% dos bancários afirmaram ter utilizado medicamentos controlados (antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes) no último ano.
Na pergunta "Quais impactos a cobrança excessiva pelo cumprimento de metas causam à sua saúde?", com possibilidade de múltiplas respostas, destacaram-se:
"Para enfrentar esse cenário, o Comando Nacional quer discutir, entre outros pontos, a implementação da NR-1, com o mapeamento dos riscos psicossociais e acesso às informações de saúde da categoria", destacou Mauro Salles.
As principais reivindicações sobre saúde incluem:
"Existe o reconhecimento da academia e de órgãos oficiais, como OIT, OMS, Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério Público do Trabalho, do nexo causal entre metas abusivas e adoecimento dos trabalhadores", reforçou Mauro Salles.
Fechamento da mesa
"Após a apresentação dos dados pelo Comando, a Fenaban travou a mesa, criando falsas polêmicas e ameaçando retirar todas as cláusulas de saúde já conquistadas na CCT. Nós reiteramos que a pauta da saúde é fundamental. Não vamos concluir a negociação sem discutir esse tema. E a mesa única é o lugar onde a saúde do trabalhador deve ser tratada", destacou Juvandia Moreira.
Antonio Abdan avaliou que a mobilização da categoria será decisiva para mudar o rumo das negociações. "No dia 30 teremos uma nova rodada, desta vez sobre as cláusulas econômicas, como reajuste e PLR. Esperamos que os bancos compareçam realmente dispostos a negociar e não apenas a frustrar as expectativas da categoria. Mas, acima de tudo, é fundamental que os bancários permaneçam mobilizados. O que está em jogo são conquistas históricas e novos avanços que precisamos alcançar nesta campanha salarial."
Após novo pedido de intervalo, a Fenaban concordou em dar continuidade às negociações sobre saúde na próxima mesa, marcada para 30 de julho.
Dia Nacional de Luta
Como parte da mobilização da Campanha Nacional, o Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários aprovou a realização de um Dia Nacional de Luta e Mobilização, em 28 de julho.
"Estamos chamando todos os bancários para participarem dessa mobilização. Vamos defender a mesa única de negociação, a valorização da categoria e cobrar respostas concretas às reivindicações já apresentadas. Queremos renovar nosso acordo coletivo de acordo com as expectativas dos trabalhadores, e não apenas com os interesses dos bancos", concluiu Antonio Abdan.
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Da Redação com Contraf-CUT
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