Notícias

1 de Dezembro de 2009 às 13:33

Luta contra a Aids: Avanço sobre homens acima de 50 e mulheres abaixo de 24

Compartilhe

Mais de 630 mil brasileiros são portadores do virus HIV, que se dissemina em todas as faixas sociais. Por isso, a luta contra a Aids é permanente. Conheça aqui a história de pessoas que venceram o preconceito e hoje convivem com o vírus

André Shalders

Um filão que vem sofrendo bastante com a Aids é o dos homens heterossexuais acima dos 50 anos. No período que vai de 1996 a 2006, a incidência de Aids entre os maiores de 50 anos praticamente dobrou, passando dos 7,5 casos por 100 mil habitantes para 15,7. Entre esses, a maioria (63%) são homens. Por esse motivo, a campanha de combate à Aids de 2008, realizada pelo governo federal, teve como foco o segmento dos homens acima dos 50, assim como as campanhas realizadas durante o carnaval de 2009.

Há outra parcela da população com incidência do vírus da Aids cada vez maior no Distrito Federal. O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, liberado em agosto desse ano, aponta o grupo das mulheres heterossexuais entre 14 e 24 anos como tendo a maior taxa de infectados pelo HIV. A forma mais comum de transmissão do vírus entre esse grupo é o sexo sem proteção.

Assim como esses dados, os números gerais do Ministério da Saúde também continuam preocupantes. Em 2006, havia cerca de 630 mil brasileiros portadores do vírus da Aids. Tal estatística leva em conta apenas os casos notificados, e por isso é de se imaginar que o número real de portadores da doença seja ainda maior. As pesquisas mostram que a Aids não escolhe mais suas vítimas, não está mais restrita aos chamados grupos de risco e está disseminada por toda a sociedade. Todas as pessoas com vida sexual ativa e usuários de drogas injetáveis são alvos em potencial.

Gilson Gomes tem 42 anos de idade, e vive com o HIV desde 1988. Ele trabalha como voluntário no Grupo Arco Íris, que dá assistência à pessoas com Aids. “Eu conheci poucos homens heterossexuais portadores, pois eles são arredios e geralmente não gostam de conviver nos grupos de ajuda. Isso acontece em parte porque eles têm mais dificuldades em se aceitar como soropositivos, mas também há o preconceito por parte da sociedade. As pessoas acreditam que os homens maduros não devam ter uma vida sexual ativa, e se surpreendem quando eles se descobrem infectados. Conheço relato de pais que foram rejeitados por seus filhos e suas famílias após o diagnóstico”.

Segundo Gilson, a educação conservadora e machista também é um fator que dificulta o tratamento desses pacientes. “Eles são muito resistentes ao hábito da camisinha e da prevenção, pois foram criados em uma época onde essas preocupações não existiam. Muitos desses homens têm ainda aquela mentalidade de que eles não precisam se cuidar. Algumas médicas comentam comigo como é complicado para eles aceitarem o tratamento.” 

Carolina* relata como foi complicado o processo de aceitação da síndrome. “Foi uma mudança radical, um baque psicológico muito grande. Antes do vírus, eu era dona de uma loja, uma boutique em um Shopping. Quando recebi o diagnóstico, fiquei desesperada, achei que fosse morrer. Não tinha vontade de trabalhar nem de fazer nada. Acabei perdendo minha loja, me afastei dos meus amigos, pois tinha muito medo de ser descoberta como soropositiva. Minha família também me hostilizou. Alguns parentes me aceitaram e me apoiaram, mas outros tiveram medo, me recriminaram e pararam de falar comigo”. Carolina, 47 anos, vive há 12 anos com o vírus. Nesse meio tempo, obteve uma compreensão maior da síndrome, que a ajudou muito. “A vida continua. Eu passei a trabalhar com a aceitação e a proteção às pessoas com HIV. Reconciliei-me com a minha família, fiz novas amizades. Arrumei até mesmo um novo amor, coisa que eu achei que nunca mais teria. A coisa que mais contribuiu para que eu e as pessoas à minha volta aceitassem melhor a síndrome foi a informação. Se informar é a melhor forma de quebrar o preconceito e viver normalmente”.    

O preconceito dificulta a vida e o tratamento dos portadores

Apesar dessas iniciativas, o preconceito ainda representa uma barreira na vida dos soropositivos. O medo da rejeição social é um dos motivos que levam as pessoas à não fazer o teste de HIV. Às vezes, um resultado positivo no teste pode significar a perda de empregos, amigos e relacionamentos. Acontece que, para quem tem AIDS, é fundamental fazer o teste o quanto antes, pois é a partir disso que se inicia o tratamento. Quanto mais cedo for iniciado o tratamento, maiores são as chances de que a pessoa possa levar uma vida normal.  Por isso, no 1° de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a AIDS, no ano passado, a data foi marcada por uma intervenção na Praça dos Três Poderes em Brasília, quando um homem foi posto dentro de uma bolha de plástico, simbolizando o preconceito que afeta os soropositivos. Este ano, a campanha encampada pelo Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde reforçará o tema do preconceito, com o slogan “Viver com AIDS é possível, com preconceito não.”

O recebimento do diagnóstico positivo pode gerar alterações profundas na vida das pessoas. É o que relata Claudinei Alves Pereira, 38 anos, vivendo já há 18 anos com o vírus. “Hoje em dia existe a possibilidade de se viver normalmente com HIV, desde que a pessoa tenha acesso aos medicamentos apropriados. Eu mesmo tomo um coquetel com 17 remédios. De longe, a maior dificuldade que nós enfrentamos é o preconceito, que ainda está fortemente enraizado na sociedade. Antes do diagnóstico, eu trabalhava com alimentação macrobiótica, dava cursos sobre isso. Após o diagnóstico, as pessoas pararam de me procurar, então tive que mudar de área.”

Claudinei hoje milita no acolhimento aos soropositivos e no aceitamento do diagnóstico, e coordena o núcleo do DF e entorno da RNP (Rede Nacional de Apoio às pessoas vivendo com HIV/AIDS). “As condições no DF são boas, em comparação com outros lugares, pois nós dispomos do tratamento gratuito garantido pelo governo. Entretanto, ainda faltam muitas coisas, pois o apoio ao portador de HIV/AIDS envolve vários outros aspectos. Falta, por exemplo, um atendimento psicológico adequado, tanto antes quanto depois do teste, que ajudaria as pessoas a aceitarem e lidarem melhor com o tratamento. Acontece muito das pessoas fazerem o teste e não virem pegar o resultado, até por medo de repreensões por parte da sociedade. Só no DF são cerca de doze mil pessoas nessa situação.”

As dificuldades são ainda maiores no caso das pessoas de baixa renda, que enfrentam vários problemas adicionais para manter o tratamento.  Por isso, além das iniciativas governamentais, a sociedade civil também se organiza no apoio aos soropositivos. No DF, existem iniciativas como o Grupo Arco Íris, o GAPA-DF e o núcleo do DF e entorno da RNP.
Os portadores do vírus da AIDS também estão vivendo cada vez mais. O boletim epidemiológico de 2007 do Ministério da Saúde mostra que, das pessoas que contraíram o vírus em 2000, na região sudeste, 90% estavam vivas em 2005. Há relatos de pessoas vivendo com o vírus a mais de15 anos. O aumento da sobrevida é acompanhado também da melhora na qualidade de vida dos portadores da doença. Em grande parte, essa melhora é possível graças aos avanços da medicina e da farmacêutica no entendimento da síndrome. Os coquetéis para o tratamento da doença são chamados antirretrovirais, pois trabalham dificultando a reprodução do vírus HIV no corpo humano. No Brasil, a distribuição de antirretrovirais é gratuita e garantida por lei desde 1996.

A melhor forma de prevenção continua sendo o uso da camisinha. Estudos da área de saúde pública demonstram que o uso sistemático do preservativo em todas as relações sexuais apresenta uma taxa de eficácia em torno de 95% na prevenção da AIDS. 

Acessar o site da CONTRAF
Acessar o site da FETECCN
Acessar o site da CUT

Política de Privacidade

Copyright © 2025 Bancários-DF. Todos os direitos reservados

BancáriosDF

Respondemos no horário comercial.

Olá! 👋 Como os BancáriosDF pode ajudar hoje?
Iniciar conversa