Em audiência pública no Senado, a presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, afirmou que a sobrecarga de trabalho e a desigualdade no cuidado impactam a saúde, a renda e a permanência das mulheres no mercado de trabalho
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 estiveram no centro do debate promovido pela Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher (CMCVM), em audiência pública que ocorreu nesta quarta-feira (6), no Senado Federal, e foi presidida pela deputada federal Luizianne Lins (Rede-CE).
O encontro reuniu representantes do governo federal, especialistas e lideranças sindicais para discutir a jornada exaustiva como forma de violência estrutural e econômica contra as mulheres.
Representando a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), a presidenta Juvandia Moreira Leite destacou que a sobrecarga enfrentada pelas mulheres ultrapassa o ambiente profissional e está diretamente ligada à divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidados.
“Todos sabemos que a jornada das mulheres é maior do que a dos homens pelo trabalho reprodutivo e pelo trabalho em casa, chegando até ao terceiro turno, caso ainda se dediquem aos estudos”, afirmou Juvandia. Segundo ela, a soma entre trabalho remunerado e tarefas não remuneradas leva milhões de mulheres a jornadas semanais superiores a 55 horas.
A dirigente sindical ressaltou que o debate sobre a escala 6x1 realmente precisa ser tratado também como pauta de saúde pública e de combate à violência de gênero. “A violência não é só física. A jornada extenuante das mulheres também é uma forma de violência”, declarou.
Durante a audiência, Juvandia citou dados sobre adoecimento mental relacionado ao excesso de trabalho e lembrou que as mulheres estão entre as mais afetadas por transtornos psicológicos ligados à sobrecarga. Para ela, garantir ao menos dois dias de descanso semanal é uma medida necessária para assegurar qualidade de vida, convivência familiar e saúde mental.
“A redução da jornada beneficia as mulheres, mas beneficia também as famílias e toda a sociedade. É tempo para lazer, saúde, educação, cultura, convivência e autocuidado”, afirmou.
A presidenta da Contraf-CUT também rebateu argumentos de que a redução da jornada poderia diminuir a produtividade. Segundo ela, experiências internacionais demonstram o contrário. “Com mais saúde e bem-estar, as pessoas mantêm ou até melhoram a produtividade, além de terem mais tempo para qualificação profissional”, disse.
Outro ponto levantado pela dirigente foi a desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho, especialmente em setores estratégicos, como tecnologia. Juvandia observou que a presença feminina ainda é reduzida na área, representando 33% do total, e defendeu políticas públicas e ações legislativas voltadas à equidade.
Política de cuidados
Ao longo da audiência, representantes do governo e especialistas reforçaram que o debate sobre jornada de trabalho está diretamente ligado à política nacional de cuidados.
A secretária nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Laís Wendel Abramo, afirmou que o trabalho de cuidado sustenta o funcionamento da sociedade e recai majoritariamente sobre as mulheres.
Já a secretária nacional do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy Viana, destacou que o aumento do número de mulheres chefes de família torna ainda mais urgente a discussão sobre jornadas mais equilibradas e divisão das tarefas domésticas.
A economista Marilene Teixeira ressaltou que as mulheres acumulam jornadas superiores às dos homens, especialmente devido ao tempo dedicado ao cuidado de filhos, idosos e à rotina doméstica. Segundo ela, a luta pela redução da jornada está associada não apenas à geração de empregos, mas também à garantia de tempo para estudo, lazer e convivência familiar.
Também presente no debate, a auditora fiscal do trabalho Jeane Sales Alves alertou para os impactos da jornada excessiva sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. Ela afirmou que a atual organização do tempo de trabalho aprofunda desigualdades de gênero e limita a participação social das mulheres.
Ao final da audiência, os participantes defenderam a ampliação de políticas públicas voltadas ao cuidado, à saúde mental e à valorização do tempo livre como parte das estratégias de combate às desigualdades e à violência contra as mulheres.
Stéffany Santos
Colaboração para o Sindicato
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