
Em parceria com a Central Única dos Trabalhadores do DF (CUT-DF), o Sindicato promoveu nesta quinta-feira (25), na sede, debate sobre a temática racial com a participação da desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) Luislinda Valois, a primeira mulher negra a se tornar magistrada no Brasil. O evento, que contou com exibição do documentário João Cândido e a Revolta da Chibata, marca as comemorações do Sindicato ao Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.
Asssita entrevsita com Luislinda Valois
João Cândido e a Revolta da Chibata conta a história da insurreição deflagrada em 1910 no Rio de Janeiro por marinheiros, principalmente negros, cansados dos maus tratos e das agressões físicas a eles impostos por seus oficiais. A revolta, liderada por João Cândido, culminou com um motim que se desenrolou de 22 a 27 de novembro daquele ano na baía de Guanabara. Apesar do sucesso do motim, que conseguiu abolir os castigos corporais da Marinha, João Cândido e seus companheiros foram perseguidos duramente pelo governo de então e pelos oficiais da Marinha. Antes de ser finalmente libertado, foi preso diversas vezes e até internado num hospital psiquiátrico.
Antes do debate, Valois fez uma breve exposição em que relembrou episódios de sua infância no bairro da Capelinha de São Caetano, em Salvador, e das agruras sofridas pelo fato de pobre, mulher e negra. “De manhã, eu descia até a praia para catar mariscos. Uma parte deles minha mãe ferventava e vendia e a outra ela preparava para mim e meus três irmãos”.
As dificuldades se seguiram, mesmo no exercício do poder. “Logo que cheguei a Salvador, já como juíza, o primeiro processo que me foi distribuído era de racismo, ajuizado por uma empregada doméstica negra contra uma rede de supermercados. Como é o meu costume, instruí o processo e publiquei minha sentença com muita agilidade. Logo que a sentença saiu, recebi minha primeira ameaça de morte”.
Ela enfatizou, no entanto, a necessidade de os negros e os oprimidos não se curvarem diante das injustiças. “Não se admite ainda que o negro ocupe espaços de poder nesse país. Eu enfrentei uma corte composta praticamente apenas por homens, todos brancos. Sofri, mas saí vitoriosa. Meus pais me ensinaram que, com lisura e competência no que se faz, é impossível não ser feliz”.
“Vejam bem: o povo dos três ‘pês’, que é o povo preto, pobre e periférico, ainda não tem aquilo que precisa em termos de políticas públicas, em termos de ação do Estado. E é porque nos deixamos amedrontar. O medo é compreensível, afinal as chibatas ainda estão aí. São muitas, e são sutis. Mas nós não podemos deixar barato. Temos que exigir nossos direitos”, arrematou.
Após o debate, houve sorteio de exemplares do Estatuto da Igualdade Racial, promulgado em meados deste ano, consolidando as leis que visam a superação da discriminação racial no país. Também foram sorteados exemplares do livro de Luislinda Valois. Ela é autora de O Negro no Século XXI, lançado pela editora Juruá.
André Shalders
Do Seeb Brasília
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