Na madrugada de 1º de abril de 1964 teria início um dos capítulos mais obscuros da história do nosso país. Comandadas pelo general Olympio Mourão Filho, tropas do Exército Brasileiro marcharam de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro com o objetivo de depor o presidente João Goulart, o Jango. Na mesma noite, um manifesto foi entregue a João Goulart, no Rio de Janeiro, ordenando sua renúncia. Sem apoio, Jango iria para o Uruguai, enquanto os militares marchavam pelas ruas com viaturas, blindados e tropas, ocupando e fechando sedes de sindicatos, partidos políticos e qualquer instituição suspeita de resistência. A sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) chegou a ser vítima de incêndio criminoso.
Dentro deste panorama, o Sindicato dos Bancários foi um dos alvos mirados pela repressão em Brasília. A primeira iniciativa de organização dos bancários em Brasília foi a Associação Profissional dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Brasília, que embora fosse informal, surgiu junto com a inauguração da cidade.
Édio Custódio é um dos mais antigos militantes bancários de Brasília. Ele participou do movimento de fundação do Sindicato dos Bancários e lembra as dificuldades da categoria na época. “Na época em que se criou a Associação, havia uns quinhentos bancários em Brasília. Nos bancos públicos, a direção até tratava bem os funcionários, apesar das dificuldades da vida aqui. O problema era nos bancos privados, onde as pessoas eram muito exploradas. Se a pessoa quisesse levantar qualquer reclamação, tinha que ir até Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, pois muitos órgãos públicos demoraram a se estabelecer em Brasília”.
O bancário aposentado do BB Édio Custódio
Foi em meio à poeira e ao “canteiro de obras” de Brasília que o Sindicato dos Bancários foi fundado. A Carta Sindical que oficializou a entidade foi obtida pela categoria em 23 de novembro de 1961. Adelino Cassis, Édio Custódio e José Oscar faziam parte desse grupo inicial de militantes. Ainda em 1961, Adelino Cassis foi eleito o primeiro presidente do Sindicato.
A criação do Sindicato trouxe uma série de avanços para a categoria, como narra Édio. “Nossa primeira sede ficava no Edifício Antônio Vilares, no Setor Comercial Sul. Na época, Brasília ainda era carente de muitas coisas, por isso na sede do Sindicato funcionavam também um restaurante, uma clínica geral e um consultório odontológico”.
Entretanto, logo viriam os problemas. O Sindicato dos Bancários foi severamente perseguido após o golpe militar de 1º de abril de 1964. A entidade sofreu intervenção, vários membros da diretoria foram presos, como o próprio Adelino Cassis, e outros tantos foram ameaçados. Édio Custódio conta que até mesmo alguns dos filiados à entidade tiveram problemas. “Depois do golpe, eles transferiram cerca de 54 bancários de cidade, simplesmente por serem filiados à entidade. Eles chegavam no camarada e davam um prazo de 24 horas para que ele se mudasse de cidade ou seria demitido. Era perseguição direta.” O próprio Custódio teve uma de suas costelas quebradas pelos militares. “Teve um dia que nós, da diretoria, ficamos sitiados na nossa sede no Antônio Vilares. Nós passamos a noite lá, esperando os caras irem embora, mas foi em vão. Quando tentamos sair, eles nos pegaram na porta e nos bateram muito. Eu mesmo fiquei com uma costela quebrada por conta disso.”
Com o golpe militar, os Sindicatos e as instituições políticas foram criminalizadas. O regime militar nomeou interventores que geriram o Sindicato desde 1964 até os anos 70. Talvez seja desnecessário dizer que o regime militar era frontalmente contrário às atividades dos trabalhadores. Não aconteciam greves e nem manifestações de qualquer tipo, de forma que o período do regime militar foi de arrocho salarial para praticamente todos os trabalhadores. É a face sindical da política dos generais de “aumentar o bolo para depois dividi-lo”. Grande parte da monstruosa desigualdade social que existe em nosso país até hoje foi construída durante o regime dos generais, que embora tenha trabalhado para crescer o bolo da economia, preferiu não dividir nada.
Durante o período que se seguiu ao Ato Institucional nº 5, o AI-5, decretado em 1968, o regime militar endureceu na perseguição aos opositores do regime. Foi a época da censura à mídia, da ida para o exílio de vários expoentes da política e da cultura nacional, além da prisão, tortura e morte de vários militantes de esquerda. “Nós nos reuníamos na rua, com medo. Ficávamos olhando as esquinas para ver se não vinha ninguém, para podermos tratar dos nossos assuntos”, lembra Édio Custódio. Foi só em meados dos anos 70 que, com a reabertura, o Sindicato foi retirado da mão dos interventores.
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