Durante muitos anos, o acesso ao sistema bancário foi limitado a uma parcela da população. Operações de crédito e de cartão de crédito eram ainda mais restritas. Com o surgimento das fintechs, a população bancarizada deu um enorme salto quantitativo, especialmente em razão das “facilidades” oferecidas, o que provocou um elevado endividamento, sobretudo entre aqueles que passaram a usar o cartão de crédito pela primeira vez. Os trabalhadores são as principais vítimas dos juros abusivos das Instituições de Pagamento, especialmente os do “rotativo” do cartão de crédito, quando há atraso no pagamento da fatura.
A armadilha
As plataformas digitais e os meios tradicionais de comunicação fazem intensa propaganda para abrir contas nas fintechs, as quais não impõem restrições para se tornar cliente, diferentemente dos bancos tradicionais, que impõem inúmeras exigências. Basta colocar o nome, o CPF e algumas informações para abrir uma conta. Imediatamente, as fintechs oferecem um cartão de crédito, inicialmente com limite pequeno, que vai aumentando cada vez mais, muitas vezes bem acima do rendimento mensal do cliente.
Inúmeros canais digitais realizam propaganda de bancos e fintechs, com youtubers de milhões de seguidores promovendo essas instituições. Com isso, recebem apoio das financeiras e passam a ideia de que possuir uma conta e ter um cartão de crédito será “o melhor dos mundos”, dando acesso ao consumo e à opulência.
Obviamente, possuir uma conta bancária ou um cartão de crédito, mesmo com limite alto, é um direito na sociedade de mercado e consumo. Isso deveria ser positivo, algo que possibilitasse ajudar no cotidiano das pessoas. Porém, a propaganda leva milhões de clientes, ao fazerem uso das “facilidades” apresentadas, a um endividamento que se torna uma verdadeira bola de neve.
A falta de regras do Sistema Financeiro facilita a prática de juros extorsivos
A Instituição de Pagamentos chamada Nubank é a que mais investe em propaganda. Seus clientes são atraídos a possuir uma conta corrente e receber um cartão de crédito, depois estimulados a fazer financiamentos sem dificuldades.
Os juros do Nubank são os maiores do mercado, chegando a 19,99% ao mês. Os bancos digitais popularizaram o uso do cartão de crédito: começam com 400 reais de limite e, com o tempo, uma pessoa que tem um salário de R$ 2 mil passa a ter um limite de R$ 4 mil ou mais. Então começa o calvário.
O youtuber Alex Coimbra apresentou um vídeo em 9 de janeiro de 2024 (assista abaixo) com alguns casos do Nubank, todos com a devida comprovação, que merecem atenção:
Cliente | Data da dívida | Valor inicial (R$) | Valor final (R$) | Prazo | Juros (%) |
---|---|---|---|---|---|
1 | 05/06/2023 | 2.220,62 | 23.274,75 | 6 meses | 948,2% |
2 | 08/02/2022 | 899,24 | 266.677,94 | 6 meses | 29.506,67% |
3 | 06/11/2020 | 956,10 | 817.617,27 | 5 anos | 85.469% |
4 | 10/09/2021 | 1.796,44 | 138.871,98 | 2 anos e 8 meses | 2.861,4% |
4 (atualização) | 05/2024 (10 minutos) | 138.871,98 | 139.499,05 | 10 minutos | + R$ 627,07 |
Um mundo de facilidades
Basta buscar nas redes para encontrar muito mais: são milhares de casos em que os juros extorsivos impedem que as pessoas tenham uma vida financeira regular. A sedução do sistema é muito envolvente, aliada ao incentivo ao consumo, à falta de educação financeira e à ilusão de que gastar o que não se possui levará a um novo patamar. E é isso que as fintechs aproveitam.
Os bancos virtuais descobriram o nicho do cartão de crédito para quem não tinha acesso a esse sistema, e esses clientes estão caindo na armadilha. Os bancos sabem que as pessoas não terão condições de pagar. Por isso, aplicam juros extorsivos e buscam ganhos cada vez maiores em menor tempo.
O próprio Nubank enfrenta alta inadimplência. Entretanto, afirma que “seguirá com a estratégia de expansão da oferta de crédito até dezembro”, segundo matéria divulgada no último dia 14 de agosto, no clicjpetroegas.com.br. No segundo trimestre, a taxa de atrasos acima de 90 dias subiu para 6,6%, avanço de 10 pontos-base em relação aos três primeiros meses de 2025, segundo dados divulgados pela instituição. A fintech, mesmo com esse quadro, afirma que seguirá com sua política em busca de novos clientes. Ou seja, a política de crédito, baseada em elevados juros, impede que isso cause algum prejuízo à instituição.
O Estudo de Experiência Digital, divulgado pela Plataforma Idwall em maio de 2025, mostra que o Brasil atingiu a maior marca de clientes com atividades digitais no sistema financeiro, chegando a 93,98% da população bancarizada. Esse crescimento é resultado do Pix e da ampliação das ofertas de serviços bancários digitais. “O Brasil é hoje o segundo maior país em pagamentos instantâneos: o Pix supera todos os outros meios de pagamento combinados, consolidando-se como a principal escolha dos brasileiros”, mostra o levantamento.
O estudo da Idwall mostra ainda que a maioria dos brasileiros (87%) possui conta em banco digital, e uma parcela significativa (42,5%) utiliza exclusivamente esse tipo de instituição.
O crescimento expressivo foi registrado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, em suplemento sobre tecnologia da informação. Em 2022, 60,1% dos usuários da internet utilizavam serviços financeiros online; em 2023, o índice subiu para 66,7%, até atingir os atuais 71,2%.
Dados do Banco Central reforçam essa tendência: de 2022 a 2024, o número de pessoas físicas com conta bancária passou de 188,3 milhões para 199,8 milhões, um crescimento de 6%. Já os usuários do Pix, lançado em 2020, somaram 159,9 milhões até junho de 2025.
Essa massa de clientes usuária do sistema financeiro, especialmente os trabalhadores de baixa renda, torna-se presa fácil das armadilhas criadas por essas empresas cheias de “facilidades” oferecidas pelas fintechs, que praticam um verdadeiro ilusionismo com a aplicação de juros extorsivos que aumentam o endividamento dos brasileiros.
Pedro César Batista
Colaboração para o Sindicato