Itaú Unibanco

16 de Março de 2026 às 18:02

Metas, silêncio e adoecimento: o lado invisível do trabalho no Itaú

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A tela do computador mostra números, ranking de vendas, percentual de metas, comparações entre colegas. No celular, as mensagens de cobrança não param de chegar. É assim que começa mais um dia para milhares de bancários do Itaú. Na superfície, o banco que figura entre os mais lucrativos do país vende a imagem de modernidade, inovação e cuidado com as pessoas. Nos bastidores, porém, uma realidade bem diferente emerge em relatos de trabalhadores, denúncias sindicais e decisões da Justiça do Trabalho.

Pressão permanente, metas consideradas inalcançáveis, exposição pública de resultados e um clima organizacional marcado pelo medo de não atingir os indicadores. Esse cenário, segundo trabalhadores e entidades sindicais, tem produzido um efeito silencioso e devastador: o adoecimento psicológico de bancários em larga escala.

> Leia mais: Janeiro Branco: saúde mental também é condição de trabalho

A Justiça do Trabalho já reconheceu, em diversos casos, práticas abusivas de gestão. Em uma das decisões mais expressivas, o banco foi condenado a pagar R$ 21 milhões por dano moral coletivo, após a Justiça identificar irregularidades nas condições de trabalho e na organização da jornada de empregados em unidades do Sul do país.

Outras decisões também apontam para a existência de ambientes de trabalho marcados por constrangimento e cobrança excessiva de metas. Há casos em que a Justiça reconheceu exposição vexatória de desempenho, pressão reiterada por vendas e até situações consideradas humilhantes impostas a trabalhadores.

Mesmo diante dessas decisões e de denúncias recorrentes feitas por sindicatos de bancários em todo o país, os relatos continuam surgindo.

Uma engrenagem de pressão

Nos últimos anos, a combinação entre digitalização acelerada, fechamento de agências e redução de quadros intensificou a cobrança por produtividade dentro do banco. Enquanto o lucro do Itaú segue batendo recordes, chegando à casa de dezenas de bilhões de reais, trabalhadores relatam uma rotina cada vez mais marcada pela sobrecarga, num ambiente de pressão constante por vendas, metas agressivas e vigilância permanente sobre desempenho.

Não se trata de episódios isolados. Entidades sindicais de diferentes regiões do país têm reunido relatos semelhantes: cobrança incessante por resultados, medo de represálias e um clima organizacional que muitos trabalhadores descrevem como hostil e adoecedor.

Os efeitos aparecem nas estatísticas informais que circulam entre os próprios bancários: aumento de afastamentos por ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Nos últimos dez anos, o número de afastamentos por transtornos mentais mais que dobrou. Em 2014, o INSS concedeu 221.127 benefícios previdenciários relacionados a esse tipo de adoecimento; em 2024, foram 471.649, um aumento de 113,3%. No setor bancário, a situação é ainda mais alarmante: o crescimento foi de 168% no mesmo período.

Mas por trás dos números existem histórias.

Quando o pedido de ajuda não encontra resposta no banco

Em Brasília, uma sequência de denúncias enviadas ao Sindicato revelou o drama vivido por um trabalhador do banco. As mensagens relatam um cotidiano marcado por sobrecarga de tarefas, prazos considerados incompatíveis com a demanda real de trabalho e cobranças reiteradas por resultados.

O funcionário descrevia uma situação de pressão psicológica constante, agravada pela falta de suporte institucional diante de problemas de saúde já documentados.

Em um dos pedidos de ajuda encaminhados ao Sindicato, ele relatava a acumulação de funções e prazos rígidos que tornavam o trabalho emocionalmente insustentável. Também apontava falhas no tratamento de denúncias feitas pelos canais internos do próprio banco, afirmando que processos foram encerrados sem investigação ou retorno efetivo.

O bancário também informou que havia solicitado formalmente uma realocação de área devido ao desgaste físico e psicológico. Mais de um mês após o pedido, segundo ele relatou, nenhuma resposta havia sido dada.

Os relatos apontavam ainda para a percepção de que mecanismos internos de apuração poderiam estar comprometidos por conflitos de interesse, levantando dúvidas sobre a imparcialidade das investigações conduzidas pelo próprio banco.

Era, acima de tudo, um pedido de ajuda, que foi ouvido pelo Sindicato, que vinha prestando a ele toda a assistência necessária desde que recebera a denúncia.

No último dia 8 de março, porém, colegas foram surpreendidos por uma notícia devastadora: o bancário, que estava afastado do trabalho, havia tirado a própria vida. A tragédia abalou profundamente o ambiente de trabalho. E novas denúncias começaram a chegar ao Sindicato.

Nos relatos, colegas descrevem um sentimento coletivo de choque e indignação. Segundo essas denúncias, o episódio expôs de forma dramática o que muitos trabalhadores já vinham denunciando: um ambiente organizacional que ignora sinais de sofrimento psicológico.

Uma das mensagens descreve um clima de medo, esgotamento e abandono entre os funcionários. O texto afirma que casos de ansiedade, depressão e burnout têm se tornado cada vez mais frequentes entre bancários.

Segundo os relatos, o que mais chocou os colegas foi o silêncio institucional após a tragédia. Trabalhadores afirmam que o assunto sequer foi mencionado no ambiente de trabalho, reforçando a sensação de invisibilidade e descaso.

“Não podemos permitir que o sofrimento dos bancários continue invisível”, diz uma das denúncias enviadas à entidade.

Um problema estrutural

Especialistas em saúde do trabalho alertam que ambientes corporativos marcados por pressão permanente e metas agressivas podem produzir impactos severos na saúde mental dos trabalhadores.

Quando essa pressão é acompanhada de exposição pública de resultados, ameaça velada de punições ou ausência de canais confiáveis de escuta, o ambiente pode evoluir para aquilo que a literatura da área define como assédio moral organizacional.

É exatamente esse tipo de prática que vem sendo denunciado por sindicatos de bancários em diversas regiões do país.

Enquanto isso, o Itaú segue acumulando lucros bilionários e reforçando em suas campanhas institucionais o compromisso com valores como ética, respeito e bem-estar no ambiente de trabalho.

Para muitos trabalhadores, porém, a realidade dentro das agências e escritórios parece contar outra história. Uma história feita de metas inalcançáveis, adoecimento silencioso e pedidos de ajuda que, muitas vezes, chegam tarde demais.

Denuncie!

Se você está sendo vítima de assédio ou presencia situações desse tipo no ambiente de trabalho, procure o Sindicato. A entidade mantém um canal específico para receber e acompanhar denúncias. Clique aqui e registre sua denúncia. O envio pode ser feito de forma anônima.

Caso precise de orientação, acolhimento ou apoio, entre em contato pelo Observatório de Saúde Mental do Trabalhador Bancário ou pelo WhatsApp da Secretaria de Saúde do Sindicato: (61) 99801-1141.

Você não está sozinho.

Da Redação

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