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20 de Junho de 2026 às 17:30

Lucros recordes do sistema financeiro e endividamento das famílias marcam os desafios da campanha salarial 2026

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A terceira mesa de debates da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada neste sábado (20), foi aberta com a palestra do doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp e técnico do Dieese, Gustavo Cavarzan, que apresentou o cenário de profundo paradoxo econômico em que a Campanha Nacional Unificada 2026 acontece: enquanto o Sistema Financeiro Nacional (SFN) registra lucros extraordinários, a maior parte da população brasileira enfrenta um comprometimento severo de sua renda, por conta do endividamento e das altas taxas de juros.

De acordo com dados do Dieese, o setor financeiro tem se sustentado, em grande medida, pelo crédito caro oferecido às famílias para consumo corrente que, por sua vez, é influenciado pela política monetária do Banco Central de manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevadíssimos nos últimos anos.

"A qualidade de vida dos brasileiros tem sido diretamente impactada por essa política monetária. A Selic encontra-se em um patamar sete vezes maior do que no início de 2021, o que provocou uma forte elevação nos juros bancários e a desaceleração do crédito livre", explicou Cavarzan.

Crédito livre é a modalidade de empréstimo ou financiamento onde as taxas de juros e as regras são negociadas livremente entre a instituição financeira e o cliente. "Esse cenário é agravado pelo aumento do endividamento das famílias, que disparou no governo Bolsonaro e se mantém em patamares elevados desde então, com destaque que esse endividamento não foi direcionado à formação de patrimônio, como a compra da casa própria, mas ao consumo básico, concentrando-se em linhas mais caras do mercado”, completou o economista.

Cavarzan destacou que, atualmente, o cartão de crédito é o principal vilão, atingindo 84,9% das famílias endividadas. "Fatores como a desregulamentação do SFN (com a ampliação de fintechs ofertando crédito de forma desproporcional), digitalização dos hábitos de consumo, com cadastro de cartão de crédito em diversos aplicativos de consumo (comida, mercado, transporte, magazines etc.) e legalização das BETS/jogos online em 2018 e sua expansão desde então, ajudam a entender por que, embora o rendimento médio real no Brasil tenha crescido 12% desde o período pré-pandemia, após o pagamento das dívidas com o sistema financeiro, esse crescimento real cai atualmente para apenas 3%", observou o economista.

Cavarzan apontou ainda que a quantidade de cestas básicas adquiridas pelo salário mínimo por ano em abril deste ano é semelhante à adquirida em abril de 2019. Além disso, somente em 2024, o Brasil conseguiu retomar o PIB per capita no patamar que estava em 2014. “A deterioração econômica em setores importantes, provocadas pelos governos Temer e Bolsonaro, ainda estão sendo superadas. Em outras palavras, apesar do bom desempenho recente de indicadores macroeconômicos, estamos apenas retomando patamares de uma década atrás. Portanto, ainda que o governo Lula 3 siga apresentando bom desempenho nos indicadores macroeconômicos, a população não está satisfeita, afinal boa parte dos seus rendimentos está sendo drenada pelas altas taxas de juros, atrapalhando a percepção da melhora macroeconômica por parte das famílias", reforçou.

Lucros no topo, renda na base

Em contraste com a dificuldade financeira das famílias, o setor financeiro vem registrando rentabilidades extremamente elevadas, ano após ano. Entre 2020 e 2025, o lucro líquido do SFN cresceu 114%, com destaque para os bancos digitais, que registraram salto de 2.137% no lucro, seguido pelas cooperativas com 180% de aumento.

Os bancos privados e públicos também mantiveram tendência de alta, com crescimento de 114% e 46%, respectivamente. "Esse desempenho sólido ocorre no mesmo momento em que o setor se acopla à realidade do endividamento da população, extraindo resultados de linhas de crédito com alto comprometimento da renda das famílias", reforçou Cavarzan.

Mudanças estruturais e a tecnologia no setor bancário

A segunda palestrante da mesa, a mestre em Economia Política pela PUC-SP e também técnica do Dieese, Rosangela Vieira, destacou que o mercado de trabalho bancário passa por uma reestruturação agressiva, baseada na redução de custos operacionais e na digitalização. "Entre 2024 e 2025, os cinco maiores bancos fecharam 1.345 agências, totalizando queda de 37% na rede física, considerando esse período. Mas reestruturação não reflete uma retração no setor, que teve lucro líquido de R$ 124 bilhões em 2025, mas sim uma mudança de estratégia para focar em alta renda e no atendimento digital", pontuou a pesquisadora.

Rosângela destacou ainda que, paralelamente à eliminação de postos tradicionais, está ocorrendo a migração para áreas tecnológicas. "Enquanto as funções tradicionais de bancários sofreu uma redução de 24 mil postos (-57%), houve um aumento expressivo de 21 mil novos postos nas áreas de Tecnologia da Informação (+175%)", frisou, completando que a mudança de postos está alterando o perfil da categoria, já que parte significativa das novas vagas não segue a estrutura sindical tradicional.

"Em 2025, os bancos públicos concentravam 42% do emprego bancário no país. Durante os governos Temer e Bolsonaro, esse percentual foi reduzido para 22%, o que corresponde a uma perda de 21,1 mil postos de trabalho por ano. Caso esse ritmo de redução tivesse sido mantido durante o terceiro governo Lula - o que não ocorreu - o estoque de emprego dos bancos públicos seria cerca de 60,6 mil postos inferior ao observado em 2025, de 174,4 mil postos", calculou a economista.

Rosângela Vieira também apresentou dados que mostram a consolidação das cooperativas e fintechs no Sistema Financeiro Nacional. "Entre 2013 e 2025, a carteira de crédito e rede de atendimento das cooperativas subiu de 2% para 7% e saiu de 11% para 29% do SFN, respectivamente. Entre as fintechs, o fenômeno de expansão é semelhante. Só para dar exemplo do nome mais destacado, de 2021 até 2025, o Nubank aumentou em 75 milhões a base de clientes e multiplicou sua receita em 20 vezes, com lucro superior ao de bancos tradicionais, como Santander e Caixa", pontuou.

Mulheres perdem espaço e outros impactos da IA generativa

Um dos pontos de destaque da terceira mesa de debates da 28ª Conferência dos Bancários foi o impacto de gênero nas demissões. Rosângela Vieira destacou que as mulheres estão perdendo postos de trabalho de forma desproporcional, por conta da natureza das vagas eliminadas e das criadas. "Nos postos tradicionais que estão sendo extintos, as mulheres representam 62% da força de trabalho. Em contrapartida, nas novas vagas de tecnologia, que estão em expansão, a participação feminina é de apenas 24%, evidenciando a exclusão tecnológica do setor", reforçou.

A economista reforçou que as novas tecnologias também estão acelerando a substituição de funções administrativas e de atendimento básico (que tiveram redução de 57% entre 2015 e 2025) por cargos voltados a TI.

Avanços e desafios

Gustavo Carvazan concluiu que o movimento de redução estrutural (fechamento de postos de atendimento e de trabalho) deve seguir avançando na categoria, diante da consolidação dos novos atores (fintechs e cooperativas) e inovações tecnológicas.

Rosângela Vieira, por sua vez, complementou que as mudanças na organização do trabalho, provocadas pelos mesmos fatores, intensificam os desafios relacionados às metas, saúde dos trabalhadores e à qualificação profissional.

A 28ª Conferência Nacional dos Bancários segue até domingo (21). Ainda neste sábado, a quarta mesa de debates vai tratar sobre estratégia de comunicação e organização da categoria para a Campanha Nacional 2026.

Fonte: Contraf-CUT

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