
O Brasil e a Argentina, até recentemente sintonizados na condução de suas economias pelo receituário neoliberal, com Michel Temer seguido de Jair Bolsonaro, por aqui, e Maurício Macri, lá, viram seus projetos serem novamente dissociados no final de 2019, quando o povo argentino elegeu presidente o socialista Alberto Fernández, com Cristina Kirchner de vice. E com o surgimento da pandemia do coronavírus (Covid-19), as diferenças entre modelos de cada país se acentuaram nos planos político e econômico, com profunda distinção entre a postura e as ações adotados por seus líderes.
A reação de Alberto Fernández contra o avanço do novo coronavírus no país fortaleceu sua liderança e aumentou sua popularidade. O país fechou as fronteiras e ordenou medidas severas de isolamento para desacelerar a propagação da doença. Para garantir o cumprimento da quarentena, foram adotadas, entre outras ações, as patrulhas nas estradas e o rastreamento dos movimentos de celulares de motoristas.
O presidente argentino passou a se referir ao coronavírus como “inimigo invisível” e a chamar a pandemia de “martírio”, transmitindo à população a postura de quem está voltado para a proteção da vida de todos, atitude que acabou por fortalecer sua imagem como líder.
Na área econômica, o governo argentino anunciou pacote de medidas com isenções fiscais para garantia dos empregos e com forte investimento estatal em infraestrutura, com foco em educação e turismo. Foram destinados 350 bilhões de pesos em crédito mais barato "para garantir a produção e o fornecimento de itens básicos de alimentos e para impulsionar atividades e financiar a operação da economia". Para obras públicas, foram destinados 100 bilhões de pesos.
Os grupos mais vulneráveis – pessoas com assistência social, crianças e aposentados – receberam ajuda em pagamentos únicos e foi garantido o fornecimento de alimento em cozinhas comunitárias.
Após a decretação da quarentena e das medidas econômicas, Alberto Fernández viu sua popularidade subir de cerca de 50%, no início do seu governo, para acima de 70%, em meados de abril.
Dados mais recentes, colhidos pela consultoria Analogías, mostram que as palavras do presidente argentino geram atenção e expectativa, sendo satisfatórias para 85% dos pesquisados. As medidas sanitárias atingiram patamar de 90% de aprovação, com a extensão do isolamento social obrigatório chegando a 87%. O esforço para proteção às camadas mais humildes da sociedade tem respaldo de 56% dos entrevistados e o papel exercido pelo Estado é visto como positivo por 78%.
Enquanto isso, no Brasil...
Na contramão do mundo, Jair Bolsonaro e seu governo tratam a Covid-19 como “gripezinha” e agem deliberadamente contra as medidas sanitárias de contenção do contágio e da disseminação do vírus. O presidente da República apregoa dia e noite o fim do isolamento social e o resultado é um país sem liderança e uma população dividida, amedrontada pela pandemia e insegura quanto ao que pode vir pela frente, como quem se encontra em uma nau desgovernada.
No domingo (10), em mais uma de duas destemperadas declarações em frente ao Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro voltou a criticar estados e municípios por medidas ligadas ao isolamento social e prometeu forçar a quebra do isolamento com a inclusão de mais algumas profissões entre as consideradas essenciais. “Já que eles [governadores e prefeitos] não querem abrir, a gente vai abrindo aí”, disse ele.
Crescerem, por sua vez, as reações críticas em relação à postura e às ações de Bolsonaro na condução das crises sanitária e econômica. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, também no domingo, o professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Maurice Obstfeld, que foi economista-chefe do FMI entre 2015 e 2018, diz que “a atitude de Bolsonaro para com a covid-19 pode levar a uma segunda onda de infecção ou a um confinamento mais severo mais na frente”.
O economista prevê que a resposta do presidente brasileiro à crise do coronavírus pode fazer com que a economia brasileira encolha mais do que os 5,3% projetados pelo FMI para este ano. A seu ver, a abordagem inadequada da questão sanitária certamente terá efeitos na vida econômica. "As pessoas podem não ser capazes ou não ter vontade de participar integralmente da economia, se elas estiverem doentes ou temerem a infecção”, afirmou.
Evando Peixoto
Colaboração para o Seeb Brasília
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