A crise do coronovírus está mostrando ao mundo a desigualdade social. À medida que a Covid-19 avança, principalmente entre a população mais vulnerável, a injustiça torna-se cada vez mais evidente. É o caso do que ocorre no Sol Nascente/Pôr do Sol, uma das regiões administrativas mais afetadas pela doença em todo o DF.
Para intensificar os esforços na tentativa de fazer uma sociedade mais justa e solidária, especialmente neste momento de crise, o Comitê de Solidariedade Bancária de Combate ao Coronavírus do Sindicato desenvolve a campanha ‘Quem tem fome tem pressa’, com o apoio financeiro dos bancários. No dia 31 de maio, 80 famílias da região foram contempladas com a entrega de cestas de alimentos e produtos de higiene.
“Ficamos bastante impactados com o que vimos no Sol Nascente”, comenta o secretário de Relações com a Comunidade do Sindicato, Antonio Abdan. Ele observa que, mesmo depois de se tornar região administrativa, a precariedade e a falta de infraestrutura continuam fazendo parte da realidade dos habitantes do setor. “Momentos como os que estamos vivendo exigem de nós um sentimento de acolhimento para com o próximo”, pontua.
População apreensiva
A líder comunitária Elândia Reis também está bastante sensibilizada com a situação dos moradores do Sol Nascente, e tem se empenhado para ajudar a amenizar o sofrimento dos mais vulneráveis. “A população está apreensiva com a pandemia. E os problemas que enfrentamos com a falta de saneamento básico se agravam ainda mais com essa crise”, avalia.
Elândia alega que também tem a questão do isolamento social. “As pessoas precisam ficar em casa. Mas como, se os benefícios não chegam, nem do governo federal e nem do local? Eles fazem muita propaganda, mas a realidade é outra. O povo está sofrendo muito, sem ter o que comer”, lamenta.
Para a líder comunitária, que chegou à região em 2003, quando o então bairro ainda não tinha água nem luz, e havia apenas 30 casas, é necessário ter uma assistência pontual no Sol Nascente. “O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), por exemplo, precisa ser mais atuante para facilitar a vida da população”.
Elândia acredita que, independentemente da pandemia, deveria ter um Centro de Referência mais próximo ao SHSN Trecho III, QNQ/QNR, para facilitar a vida das pessoas que no dia a dia têm de se deslocar para serem atendidas no CRAS do Setor P Sul.
Obras paralisadas
Hoje, o Sol Nascente/Pôr do Sol é a 32ª Região Administrativa do DF. Por 19 anos fez parte da RA de Ceilândia, até o desmembramento em 2019. Tem aproximadamente 130 mil habitantes e é dividido em três trechos. No Trecho I, as obras de infraestrutura estão praticamente concluídas. No II já estão concluídas. Porém, no Trecho III, onde Elândia atua como liderança, há muitas pendências porque os serviços foram paralisados.
“Estamos lutando e esperando o retorno das obras, que estão em processo de licitação. O atual governo não fez nada até agora. As máquinas iniciaram os serviços, mas foram retiradas porque a empresa faliu. O governo anterior fez obras onde não deveria. Portanto, continua tudo parado. E quem sofre é o povo, com a poeira e com o barro, no período de chuva”, relata Elândia.
E acrescenta: “Esse é o principal problema que enfrentamos. A rede de esgoto já foi concluída, mas falta executar praticamente 70% das obras de pavimentação”.
O carro pipa da Administração Regional tem passado em uma das vias principais do Sol Nascente, em dias alternados, para amenizar a poeira.
Saúde
Para cuidar da saúde, os moradores do Sol Nascente dispõem de quatro Unidades Básicas de Saúde (UBS), sendo a 16, no Trecho I, e as outras três (08 Setor P Norte, que dá suporte a UBS 01 improvisada dentro do laboratório do Setor P Norte) que atende o Trecho II, onde não há UBS; e a 12 QNQ, que dá suporte a UBS 15 Vila Olímpica, que atende o Trecho III).
Com a pandemia, a UBS 15, por falta de espaço físico e estrutura adequada, está funcionando, provisoriamente, como suporte da UBS 12 dentro da Vila Olímpica do Setor P Norte. “Estamos reivindicando à Secretaria de Saúde, há mais de 90 dias, pelo menos o aluguel de um espaço para que os profissionais possam atuar dentro do Sol Nascente”, diz Elândia.
Educação
A região do Sol Nascente conta com cinco escolas para atender aos estudantes: Escola Classe 66, Centro Fundamental 28 (Trecho III), Escola Classe Setor P Norte (Trecho II), Escola Classe JK (Trecho I) e Centro de Ensino Fundamental 32 (Setor Habitacional Pôr do Sol).
As demais escolas ficam nas imediações (Setor P Norte, QNQ/QNR, Expansão do Setor O, Setor P Sul), onde as crianças têm ônibus para ir à escola.
No Trecho III somente a EC 66 atende crianças a partir de quatro anos de idade até o quinto ano. E não há disponibilidade de vagas para atender a todos. Os moradores pedem mais escolas no local, principalmente de ensino fundamental e médio. Porém, não há área disponível.
A EC 68 ocupou o espaço de um antigo albergue, localizado nas imediações da região. Porém, o local é distante, pois a escola fica situada na QNR. Quem não tem condições de pagar a passagem de uma van, vai a pé. As mães caminham com a criança uma média de 6 quilômetros de ida e volta, diariamente. Só têm direito ao passe estudantil crianças a partir dos 6 anos de idade.
“Por isso, é necessário definir áreas passíveis de construção de equipamentos públicos dentro do Sol Nascente”, defende Elândia.
Transportes
Na área de transportes também há sérios problemas a serem resolvidos. As linhas são poucas e não atendem outras cidades, além de Ceilândia e Taguatinga. Tem uma linha do Plano Piloto, mas os horários são muitos espaçados.
Outra reclamação é a falta de sinalização das paradas de ônibus de todo o Sol Nascente.
Exemplo de solidariedade
Como se não bastasse todo o seu tempo dedicado aos inúmeros problemas do Sol Nascente, Elândia ainda dá mais um exemplo de solidariedade para com o próximo. Desde o início da pandemia, ela tem acompanhado o grande número de pessoas que estão passando dificuldade, batendo em sua para pedir um prato de comida.
Sensibilizada com a situação, a líder comunitária pediu ajuda aos mercados e a sua equipe de trabalho e, desde então, todos os sábados, com a colaboração de sua família e amigos, ela faz marmitex e distribui prioritariamente ao pessoal da reciclagem.
“Começamos com 48 marmitas. No último sábado, entregamos 118”, comemora, feliz com mais essa realização. E garante: “Tomamos todas as precauções, as pessoas respeitam o distanciamento na fila, e tudo é muito bem higienizado”. Mas não termina por aí: “Também fazemos doações de cestas básicas,” conta Elândia.
Mariluce Fernandes
Do Seeb Brasília










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