Banco BRB

6 de Janeiro de 2026 às 17:41

Cláusula do FGC previa suspensão de socorro ao Master em caso de investigação

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Uma cláusula considerada padrão em contratos de crédito de alto risco acabou se tornando peça-chave no colapso do Banco Master. O contrato de empréstimo emergencial firmado entre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a instituição previa a suspensão imediata do socorro financeiro caso o banco ou seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro, se tornassem alvo de investigações da Polícia Federal ou do Ministério Público Federal. A informação foi revelada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo O Globo.

O dispositivo contratual, descrito por especialistas como uma ferramenta clássica de gestão de risco, permitia ao FGC interromper o apoio em um cenário de deterioração relevante do perfil de crédito do tomador.

A existência dessa salvaguarda ganhou relevância diante da escalada de eventos que, em poucos meses, tornaram insustentável a situação financeira do Master e culminaram na decretação de sua liquidação pelo Banco Central (BC), em novembro de 2025.

Em maio de 2025, segundo apuraram as reportagens, o FGC concedeu ao Master um empréstimo emergencial de R$ 4 bilhões para permitir o pagamento de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), em um momento em que o banco já enfrentava sérios problemas de liquidez e não conseguia realizar novas captações desde março. No mesmo período, o Banco Regional de Brasília (BRB) anunciou a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master, por R$ 2 bilhões.

A operação, no entanto, dependia de aval do Banco Central — que acabou vetando o negócio após identificar irregularidades nas carteiras de crédito envolvidas.

Sem a conclusão da venda e com recursos insuficientes para cobrir seus compromissos, o Master passou a buscar alternativas emergenciais para reforçar o caixa.

Foi então que Daniel Vorcaro passou a vender ativos pessoais, como participações societárias, imóveis e direitos creditórios ao BTG Pactual, levantando cerca de R$ 1,5 bilhão. Também se desfez da seguradora Kvor, posteriormente adquirida pela J&F, da família Batista. O grupo ainda tentou vender o Will Bank, sua operação digital, que chegou a despertar interesse do fundo árabe Mubadala, sem sucesso.

A estratégia não adiantou. Balanço divulgado em abril de 2025 mostrou que o Master acumulava passivos de R$ 7,6 bilhões no primeiro semestre do ano anterior. Até o fim do exercício, os compromissos chegavam a R$ 16 bilhões, evidenciando a dependência contínua de novas fontes de financiamento.

O FGC ainda não definiu uma data para pagar os investidores do Banco Master, mais de 50 dias depois da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central, ocorrida em 18 de novembro do ano passado. O atraso já configura o maior intervalo entre a decretação de liquidação e o início das restituições desde, ao menos, 2016.

Banco Central: veto, investigação e deterioração acelerada

O ponto de inflexão ocorreu no início de outubro, quando o empréstimo inicial do FGC venceu e precisou ser rolado. Quase simultaneamente, o Banco Central rejeitou oficialmente a operação de venda ao BRB. A decisão foi acompanhada da abertura de um inquérito pela Polícia Federal, com base em documentos que embasaram o veto do BC.

A PF passou a investigar suspeitas de fraude contra o sistema financeiro, falsidade documental e possíveis prejuízos a instituições públicas, envolvendo operações de cessão de carteiras de crédito entre Master e BRB que somariam R$ 12,2 bilhões.

Com a investigação em curso, a cláusula de segurança do contrato com o FGC tornou-se um fator crítico. Sem a perspectiva de um novo e mais robusto socorro — que, segundo o mercado, poderia chegar a R$ 10 bilhões — e sem alternativas privadas viáveis, a situação do banco se tornou insustentável.

A decisão pela liquidação

Em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi preso preventivamente ao tentar embarcar para fora do país no Aeroporto de Guarulhos. Ele foi solto dias depois, passando a usar tornozeleira eletrônica.

Em documento encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU), segundo reportagem de O Globo, o BC detalhou as razões da medida extrema. Segundo a autoridade monetária, o conglomerado enfrentava uma “crise aguda de liquidez”, sem condições de honrar compromissos no curto prazo. As tentativas de solução de mercado teriam se mostrado ineficazes, enquanto irregularidades graves comprometeram a solvência do grupo.

Na data da liquidação, o banco mantinha apenas R$ 22,9 milhões em depósitos frente a uma exigibilidade de R$ 2,537 bilhões em compulsórios. O caixa livre era de R$ 4,8 milhões, enquanto venciam R$ 48,6 milhões em CDBs no mesmo dia — evidenciando a incapacidade de pagar investidores.

“O esgotamento de todas as alternativas, aliado à identificação de irregularidades graves com indícios de crimes, tornou a liquidação indispensável para a proteção do sistema financeiro e da poupança popular”, sustentou o BC.

Falhas de gestão e alerta ignorado

O Banco Central informou ao TCU que acompanhava o Master desde o primeiro semestre de 2024. À época, a instituição já apresentava um modelo de funding desequilibrado, baseado majoritariamente em operações de longo prazo, o que limitava a geração de caixa para obrigações imediatas.

Mesmo após determinação para reforçar a liquidez e apresentar um plano de contingência, o banco frustrou suas metas de captação: dos R$ 15 bilhões previstos para 2024, apenas R$ 2 bilhões foram efetivamente obtidos. Ainda assim, o Master seguiu contratando operações de longo prazo, agravando o descasamento financeiro.

A partir de novembro de 2024, o banco passou a não conseguir rolar integralmente suas obrigações e acumulou episódios de recolhimento insuficiente de compulsórios. As medidas adotadas — cessão de carteiras, suspensão de crédito corporativo e busca por compradores — mostraram-se insuficientes.

FGC, limites do socorro e colapso final

Em abril de 2025, o Master solicitou formalmente assistência financeira ao FGC, que totalizou R$ 4,3 bilhões até outubro. Um novo plano apresentado ao BC previa a prorrogação desse apoio até dezembro de 2026, mas as negociações finais resultaram apenas na extensão da assistência à Will Financeira, que permanece sob intervenção, e na possibilidade de aquisição de letras financeiras pelo Fundo.

Para o Banco Central, o desfecho evidenciou falhas estruturais de governança, gestão de capital e controle de risco, que impediram qualquer recuperação sustentável. “A instituição, embora instada diversas vezes a regularizar sua situação, não logrou adotar medidas eficazes para assegurar seu soerguimento econômico-financeiro”, concluiu o órgão.

Fonte: ICL Notícias

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