Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil
Aluguel e plataformização da moradia são as novas fronteiras da financeirização, destaca a arquiteta e urbanista
O alto custo da moradia e a precarização das habitações não são fenômenos que atingem apenas os brasileiros. No mundo todo, grandes players do mercado financeiro têm transformado a moradia em ativo de investimento, ampliando as desigualdades sociais. “Quando a moradia vira um ativo flexível, mundializado, plataformizado, ela perde as suas características de subsistência vinculadas à cultura local. Isso vai criando uma nova classe de sem tetos no mundo, uma classe que não consegue ter acesso à moradia e, portanto, começam a aparecer as moradias precárias”, sublinha Isadora de Andrade Guerreiro, ao destacar as transformações do setor desde a crise financeira mundial de 2008.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a pesquisadora afirma que as políticas públicas habitacionais não estão suprindo as demandas das famílias e tampouco rompem com a lógica da financeirização. A política do aluguel social, exemplifica, “tem sido uma antipolítica que, além de não dar conta das necessidades das famílias, tem criado um mercado irregular de aluguel”.
A tentativa de solucionar o problema habitacional via parcerias público-privadas (PPPs), acrescenta a entrevistada, tem gerado novas controversas e irregularidades. “Em São Paulo, as famílias estão sendo removidas das favelas e acessando unidades compradas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), que são unidades de estúdio com lavandaria terceirizada. Ou seja, são famílias grandes que vão morar em estúdios e ainda têm que pagar para lavar a roupa. É um negócio completamente fora da realidade”, reitera. O enfrentamento da crise habitacional do país, sugere Isadora, depende de “políticas robustas de aluguel social com parque público”.
A seguir, a pesquisadora comenta as ideologias que acompanham os discursos imobiliários da casa própria e do aluguel e explica os processos de reconfiguração da moradia depois da crise de 2008. Ela destaca ainda a transformação de territórios populares em novas fronteiras do capitalismo financeiro e imobiliário bem como a atuação dos Estados nesse processo.
A Campanha da Fraternidade 2026, a partir do tema “Fraternidade e Moradia – Ele veio morar entre nós”, também está problematizando a questão da habitação. À luz do ensino social da Igreja, a campanha dá visibilidade às condições de moradia inadequada de milhares de brasileiros, ao aprofundamento das desigualdades e ao comprometimento dos direitos humanos fundamentais.
Isadora de Andrade Guerreiro é graduada, mestra e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). É professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP).
Confira a entrevista.
IHU – O ideal da casa própria foi difundido entre os brasileiros, marcando diferentes gerações. Contudo, nos últimos anos observa-se um aumento significativo na busca por moradias de aluguel. Quais as razões dessa mudança? Esse é um fenômeno global, que também se manifesta no contexto nacional?
Isadora de Andrade Guerreiro – Temos que separar o que é uma narrativa ideológica sobre a casa própria ou o aluguel – que está atrelado aos interesses do mercado ou do poder público no direcionamento da forma de provisão habitacional majoritária no país – da questão da vida das pessoas e do que elas querem e podem ter como opção de moradia.
Até a década de 1960, antes da ditadura militar que criou o Banco Nacional de Habitação (BNH), o país tinha uma maioria de casas de moradia de aluguel. Inclusive, os programas habitacionais que existiam, e que eram bem menores do que virou o BNH depois da ditadura, eram vinculados aos Institutos de Aposentadoria e Previdência (IAPs), que articulavam a previdência dos seus associados, que eram as pessoas que estavam empregadas. O IAP construía unidades habitacionais com os recursos colocados nos seus fundos e a locação dessas unidades para os seus próprios sócios rendia, para esse fundo, algo que pudesse pagar a aposentadoria para os sócios. Ou seja, era um programa que articulava aposentadoria e habitação para quem estivesse associado aos institutos. Esse sistema foi majoritário em relação à habitação até o BNH.
Os jovens não têm a menor condição de ter casa própria porque já não têm mais herança, as famílias estão empobrecidas e as políticas habitacionais continuam as mesmas – Isadora de Andrade Guerreiro
Além disso, tinha um mercado consolidado de aluguel no país, particularmente em São Paulo. Para as classes, populares havia a opção dos cortiços. Até as décadas de 1940 e 1950, os cortiços eram populares como lugar de moradia das classes populares. As favelas e os loteamentos irregulares começaram a aparecer a partir da década de 1960 e cresceram e estouraram na década de 1970.
Foi a ditadura militar, com o BNH, que criou a ideologia da casa própria. É uma ideologia na medida em que foi construída pelo governo militar como uma espécie de contenção social. Inclusive, tem falas da presidência do BNH dizendo que é preciso transformar os trabalhadores em proprietários porque, dessa maneira, se criam trabalhadores mais controlados, que são proprietários e não querem fazer a revolução. Nesse contexto, o BNH transformou, de fato, a moradia no país. Tem uma continuidade do BNH no Programa Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, e nas políticas federais de produção de casa própria, que passou a ser hegemônica desde então.
Dualidades pós-BNH
O BNH, pelo fato de estar muito focado nas classes média e média baixa, não era uma habitação acessível à classe trabalhadora e a pessoas que tinham baixos rendimentos ou rendimentos irregulares. A política pública não atingiu uma classe mais baixa. Majoritariamente, a classe trabalhadora acabou ou comprando lotes em loteamentos periféricos, ou formando as primeiras favelas que se adensaram rapidamente a partir das décadas de 1970 e 1980, construindo ocupações periféricas típicas não só do Brasil, mas também de toda a América Latina.
Nesse sentido, há uma dualidade pós-BNH em relação à casa própria. Existem dois modelos de casa própria: um, de produção pública e outro, que é o modelo precário de urbanização das favelas e loteamentos irregulares, vinculados à autoconstrução. O país foi entendido pela literatura, no fim da década de 1960 e nos anos 1970, como o país da casa própria.
Estou contando essa história para dizer que tem um tanto de ideologia no direcionamento da casa própria do ponto de vista político do regime militar, mas também dos interesses econômicos, porque a casa própria mobiliza um regime de financiamento muito potente. Foi o regime militar quem fez a unificação dos regimes de previdência e criou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que até hoje é o principal fundo de financiamento da moradia do país, vinculado à CLT. É um fundo muito grande que, inclusive, passou a financiar outros fundos privados de financiamento porque tem juro baixo.
Nesse contexto, pode-se dizer que foi a população quem escolheu a casa própria? Falar em escolha é um pouco difícil dado que a economia brasileira sempre foi muito instável e a população sempre teve muita dificuldade de ter trabalhos formais. Numa economia instável e com emprego sem estabilidade, é difícil, para as pessoas, se manterem no aluguel porque, de repente, podem ficar na rua se perdem o emprego. Nesse contexto, foi se configurando a necessidade de casa própria no país.
As novas famílias da classe trabalhadora não têm muita escolha. Elas estão indo para o aluguel porque é o que tem para hoje – Isadora de Andrade Guerreiro
Reconfiguração da moradia a partir da crise de 2008
Os mercados mundiais, a partir da crise de 2008, que foi uma crise vinculada ao setor imobiliário, retomaram casas que estavam hipotecadas no mundo todo, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Essas casas foram compradas, passaram pelos bancos e pelos fundos, que passaram a gerir o estoque habitacional a partir do aluguel. Nesse sentido, teve uma virada, a partir de 2010, no mundo todo, do interesse do mercado imobiliário, que foi passando do financiamento da casa própria e da hipoteca para um sistema majoritariamente de aluguel. Isso foi chegando no Brasil e na América Latina aos poucos. Em 2020, isso começou a aparecer, mas ainda não é majoritário. Em todo caso, já vemos, em grandes centros urbanos, uma produção imobiliária voltada ao aluguel.
Aí a ideologia vem junto; ela serve para vender os produtos imobiliários: a ideologia de uma vida flexível, que você pode estar em qualquer lugar do mundo, que você pode trabalhar online. As famílias diminuíram, têm menos filhos ou não têm filhos, as pessoas querem morar perto do trabalho, não querem ter carro, querem ter serviços terceirizados vinculados à moradia, como lavanderia e supermercado. Além disso, o tamanho das unidades habitacionais foi diminuindo.
Essa ideologia é um produto imobiliário específico de proprietários corporativos mundiais que gerenciam grandes carteiras de locação. Essa locação está, muitas vezes, vinculada à locação temporária, plataformizada, seccionada em públicos específicos: habitação estudantil, habitação para idosos, para imigrantes. Ou seja, criam-se seções de mercado ligadas a temporalidades e serviços específicos para cada um desses públicos.
Estamos acompanhando a transformação dos territórios populares, que na década de 1970 eram loteamentos e favelas vinculados à autoconstrução e à subsistência dos trabalhadores. Nesses lugares está havendo uma transformação muito grande do regime de propriedade para o regime de aluguel – Isadora de Andrade Guerreiro
Transformações nos territórios populares: do regime de propriedade para o regime de aluguel
Além disso, estamos acompanhando a transformação dos territórios populares, que na década de 1970 eram loteamentos e favelas vinculados à autoconstrução e à subsistência dos trabalhadores. Nesses lugares está havendo uma transformação muito grande do regime de propriedade para o regime de aluguel. Várias pesquisas mostram que em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras metrópoles está começando a aparecer uma produção diretamente vinculada ao aluguel, o que não se via antes.
Antigamente, o aluguel em favelas e loteamentos estava vinculado à unidade habitacional: uma família que não tinha aposentadoria ou queria aumentar a renda fazia uma laje e a alugava ou alugava um quartinho. Tratava-se de um sistema de subsistência vinculado à autoconstrução. O que estamos vendo hoje é uma produção bem diferente: uma produção que incorpora a terra e constrói prédios verticalizados vinculados ao aluguel. É uma produção que não visa mais a subsistência, mas a expansão de um capital que precisa ser investido e um capital que está nesses territórios, que não são mais territórios de pobreza absoluta, como eram na década de 1960 e 1970. Esses são territórios onde circulam muitos recursos a partir de uma economia pujante local. Independentemente da legalidade ou ilegalidade, é uma economia variada. Ou seja, tem dinheiro circulando, e, quando tem dinheiro circulando, ele vai para o setor imobiliário.
O aluguel é uma escolha? Não necessariamente. Quando a produção imobiliária, majoritariamente, migra para o aluguel, o que observamos é que pessoas que poderiam ter a possibilidade de adquirir novos lotes numa periferia recém-aberta, hoje em dia não podem mais. Isso porque a periferia não existe mais, seja porque a terra já chegou nos limites da cidade, seja porque a terra não existe mais ou, se existe, é cara e disputada entre promotores imobiliários informais e construtoras que estão produzindo habitação popular. Então, as novas famílias da classe trabalhadora não têm muita escolha. Elas estão indo para o aluguel porque é o que tem para hoje, digamos assim, porque a dinâmica imobiliária está mais voltada a esse mercado.
Financeirização da moradia
Tudo isso tem a ver com a crise de 2008 e a compra de grandes propriedades. Na Europa isso também está vinculado à privatização do parque público de aluguel. Na Europa pós-guerra, nas décadas de 1950 e 1960, a grande produção de habitação foi voltada à habitação pública de moradia social, com aluguéis baixos e subsidiados. A França, os países nórdicos e a Inglaterra têm grandes sistemas desse tipo.
A partir da década de 1990, com o neoliberalismo, esses conjuntos começam a ser privatizados, mas é só a partir da crise de 2008 que isso vira, porque passam a existir grandes players mundiais, como a Blackstone, que são fundos gigantescos que compraram os conjuntos públicos. Inclusive, na Alemanha, que ainda tinha um grande sistema público, durante a pandemia, foi feito um plebiscito popular sobre a reestatização desses conjuntos porque o aluguel ficou impagável para a população.
Uma vez que a moradia está vinculada a um grande sistema corporativo mundial, o investidor quer ter, com a moradia, o mesmo retorno financeiro que tem com todos os outros títulos, vinculados a fábricas e à dívida pública. Toda a dimensão financeira passa a estar em competição e a moradia precisa dar um retorno financeiro no mesmo patamar das fábricas de automóveis, sendo uma cadeia produtiva completamente diferente, ou seja, um setor vinculado às necessidades primárias da população. Ter moradia é diferente de ter carro. Todo mundo precisa ter moradia, mas nem todo mundo precisa ter carro. Só que, para o investidor, essas coisas estão no mesmo patamar de retorno quando tudo vira um ativo financeiro.
Ter moradia é diferente de ter carro. Todo mundo precisa ter moradia, mas nem todo mundo precisa ter carro. Só que, para o investidor, essas coisas estão no mesmo patamar de retorno quando tudo vira um ativo financeiro – Isadora de Andrade Guerreiro
O que começou a acontecer? A moradia ficou cara porque foi monopolizada por grandes agentes financeiros no mundo todo. Além disso, o turismo passou a ser um competidor direto da moradia porque se uma unidade habitacional rende mais num aluguel temporário e plataformizado, como o Airbnb, numa cidade como Barcelona, a moradia vai para o turismo e, portanto, sai das mãos dos trabalhadores locais.
Quando a moradia vira um ativo flexível, mundializado, plataformizado, ela perde as suas características de subsistência vinculadas à cultura local. Isso vai criando uma nova classe de sem tetos no mundo, uma classe que não consegue ter acesso à moradia e, portanto, começam a aparecer as moradias precárias. O que temos visto é uma precarização da moradia no Norte Global. Isso é uma novidade. Achávamos que a precarização da moradia era “privilégio” do Sul Global, mas o que estamos vendo é uma precarização no mundo todo, justamente por causa da articulação dos mercados pela dimensão financeira.
IHU – Como os Estados nacionais têm atuado diante da lógica da financeirização da moradia?
Isadora de Andrade Guerreiro – Tem uma dimensão mundial nesse processo, mas os Estados estão atuando de forma bastante diferenciada. Cidades turísticas mundiais, como Barcelona e Nova York, proibiram o Airbnb. Diversas formas de atuação estatal estão tentando lidar com essa forma de moradia financeirizada.
No Brasil, temos uma política habitacional que continua sendo hegemonizada pela política de provisão de habitação em propriedade, principalmente pelo Minha Casa, Minha Vida, que é o grande programa federal. Isso continua sendo um problema porque a casa própria não dá conta de uma série de necessidades da população atualmente, seja em relação à forma de vida que a população tem, seja de acesso, porque a propriedade privada é cara e exige que a pessoa fique estável no trabalho por trinta anos. Isso é muito difícil no mundo que vivemos hoje. As famílias não têm mais condições de pagar uma casa própria e, inclusive, de dar uma entrada. Os jovens não têm a menor condição de ter casa própria porque já não têm mais herança, as famílias estão empobrecidas e as políticas habitacionais continuam as mesmas.
O que temos visto é uma precarização da moradia no Norte Global. Isso é uma novidade – Isadora de Andrade Guerreiro
Antipolítica pública
A grande política pública que temos é a política de auxílio aluguel, que não é uma política. Eu a chamo de antipolítica pública porque é um dinheiro abstrato colocado na mão das pessoas, dizendo: “vire-se”. O valor desse auxílio é muito baixo, cerca de 600 reais. Com ele, aluga-se um barraco de madeira, sem chão, no fim da cidade e olhe lá. Como é um auxílio, um complemento do aluguel, a pessoa é colocada numa condição de endividamento. Embora não seja um endividamento oficial, com financiamento público, o aluguel vira um endividamento porque a pessoa precisa arcar com um recurso todo mês. Isso leva a classe trabalhadora a se submeter a empregos plataformizados, vinculados ao empreendedorismo, extremamente espoliativos e explorativos porque as pessoas precisam pagar o aluguel no fim do mês. Essa é uma população que não tem mais tempo de ficar desempregada porque tem uma dívida constante, que é o aluguel.
Nesse sentido, temos um problema muito grave porque a política de provisão habitacional não tem dado mais conta das necessidades habitacionais das famílias. A política de aluguel tem sido uma antipolítica que, além de não dar conta das necessidades das famílias, tem criado um mercado irregular de aluguel. Isso porque as famílias, nas condições em que se encontram, buscam o aluguel irregular, informal.
Em processos de remoção, é comum os gestores de habitação perceberem que estão removendo pessoas que já atenderam anteriormente com a política de auxílio aluguel. Ou seja, as pessoas saem de uma área de risco para outra área de risco. Elas não têm outra opção. Isso está criando um mercado de locação informal em favelas e em áreas de risco. Portanto, trata-se de uma antipolítica porque o dinheiro público está sendo colocado no mercado informal de aluguel, que promove mais problemas urbanos à medida que vai incentivando uma ocupação precária e uma verticalização perigosa das áreas.
Políticas de locação social
Existem algumas políticas de locação social, como em São Paulo, em que o poder público detém prédios de propriedade pública, cujas unidades são alugadas para famílias específicas, que pagam uma porcentagem pequena do que ganham. Junto a essa política estão articulados vários serviços sociais da prefeitura que acompanham as famílias. É um programa mais robusto, vinculado ao aluguel. No entanto, não é robusto nos números. Em São Paulo, a maior cidade do país, o programa atende cerca de 900 unidades. É muito pouco.
Além disso, é uma política que tem sido desmontada. No ano passado, a prefeitura aprovou, no Conselho Municipal de Habitação, a possibilidade de privatizar dois terços dessas unidades, ou seja, 600 unidades poderão ser vendidas porque a prefeitura perdeu o controle sobre esses conjuntos. Eles foram tomados por organizações locais e pelo crime organizado. Ou seja, é um problemão. Mas é um problema que não quis ser resolvido pela prefeitura. Em vez de incentivar e colocar dinheiro nesse programa, a fim de fortalecê-lo e ter mais controle social, a prefeitura colocou uma quantidade de dinheiro absurda, cerca de 8 bilhões de reais, na compra de unidades habitacionais diretamente do mercado para provisão habitacional de propriedade.
PPPs
O que temos de inovação nas políticas habitacionais de locação social são as parcerias público-privadas (PPPs) de aluguel, que começaram a ser incentivadas dentro do programa Minha Casa, Minha Vida. Os primeiros modelos estão sendo testados em Campo Grande e em Recife. As PPPs pegam terrenos públicos e fazem concessões para que uma concessionária construa e administre um parque de locação social para a população.
Tem uma série de questões nesse modelo que geram discussão. Uma delas é a privatização de terras públicas para concessionárias que acabam “pegando” a promessa de pagamento da prefeitura. A prefeitura promete pagar as concessionárias ao longo de 30 anos e, nesse tempo, elas podem securitizar essa promessa de pagamento futuro, ou seja, podem vendê-la no mercado de ações e, portanto, receber o dinheiro adiantado e construir outros empreendimentos.
Questionamos a doação de terras públicas para um sistema que está vinculado à financeirização. O modelo ainda está sendo testado e não temos condições de avaliar se está dando certo ou não, porque começou a ser implementado recentemente. A princípio, vemos que é um modelo caro para a prefeitura, além de beneficiar mais a concessionária do que as famílias. A questão das PPPs demonstra que os interesses do mercado imobiliário vinculado à locação social ainda têm prevalência porque é um modelo que articula a política pública com interesses internacionais.
IHU – Que tipo de políticas públicas seriam necessárias para atender às necessidades das famílias em relação à moradia, especialmente pensando nas novas gerações que não vislumbram mais a possibilidade de ter casa própria?
Isadora de Andrade Guerreiro – O aumento de locação social seria bem-vindo, mas vemos uma conjuntura que não tem favorecido essa política. A conjuntura política, ideológica e econômica mundial dos mercados está a fim de ganhar dinheiro com aluguel. O ideal seria haver políticas robustas de aluguel social com parque público, sem sombra de dúvidas.
Esse modelo seria possível de outras formas, mas uma coisa difícil para o poder público é ele próprio construir locações de habitação social. Em São Paulo, a política pública se propôs a comprar 40 mil unidades habitacionais do mercado, mas acabou comprando somente 20 mil. Essas unidades, em vez de irem para propriedade, poderiam ser geridas pelo poder público como aluguel. Isso seria interessante. O problema é que, às vezes, essas unidades estão localizadas em lugares periféricos. Uma coisa importante seria as prefeituras terem unidades em locais bem localizados, próximo às estações de metrô, de trem, dos corredores de ônibus, ou seja, em lugares de transporte de alta capacidade.
A conjuntura política, ideológica e econômica mundial dos mercados está a fim de ganhar dinheiro com aluguel – Isadora de Andrade Guerreiro
Se conseguíssemos articular políticas municipais regulatórias, que colocam a produção habitacional próxima de transportes de alta capacidade, vinculadas à locação social controlada pela prefeitura, seria interessante. As famílias poderiam utilizar o transporte público, ter mais acesso a bens e serviços, diminuir os gastos com transporte e, ao mesmo tempo, ter um aluguel subsidiado pela prefeitura. A locação social não precisa ser necessariamente em conjuntos construídos pela política pública. Pode ser em unidades compradas do mercado, mas a questão é como direcionar boa localização e unidades com qualidade habitacional vinculadas a famílias. O que estamos vendo em São Paulo é a construção de estúdios próximos do metrô, que não são feitos para famílias, mas para pessoas solteiras. Temos desafios pela frente em relação a isso.
IHU – Os apartamentos construídos estão menores e mais caros.
Isadora de Andrade Guerreiro – Exatamente. Em São Paulo, as famílias estão sendo removidas das favelas e acessando unidades compradas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), que são unidades de estúdio com lavandaria terceirizada. Ou seja, são famílias grandes que vão morar em estúdios e ainda têm que pagar para lavar a roupa. É um negócio completamente fora da realidade.
O que estamos vendo em São Paulo é a construção de estúdios próximos do metrô, que não são feitos para famílias, mas para pessoas solteiras – Isadora de Andrade Guerreiro
IHU – Qual imagina que será a próxima fase da especulação imobiliária?
Isadora de Andrade Guerreiro – O que temos visto em São Paulo é a disputa com o aluguel temporário plataformizado. Estamos vivendo um escândalo na cidade. Companhias subsidiadas por políticas de isenção fiscal para construírem habitações de interesse social bem localizadas construíram estúdios que estavam sendo vendidos para a população fora da faixa de renda ou para investidores que estavam comprando vários apartamentos, sem saber que eles integravam essa política, e os colocando para aluguel de plataforma.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Câmara está investigando esse caso. Várias mudanças na legislação estão sendo feitas para evitar esse problema. Mas esse é um movimento que está apenas começando em São Paulo e, quando as coisas começam em São Paulo, se espalham rapidamente para o país. No Brasil está começando o processo de disputa entre moradia e locação temporária plataformizada, que na Europa e nos Estados Unidos já está avançado. Esse processo vai dar o que falar porque estamos perdendo as nossas cidades para uma habitação financeirizada e plataformizada. Essa vai ser a próxima briga.
Muitas vezes, a plataformização da moradia acontece em áreas precárias e informais. No deslizamento de terra que ocorreu em São Sebastião, três anos atrás, parte das casas que estavam num loteamento precarizado estava alugada para turistas de veraneio e parte das pessoas que morreram estavam alugando casas pelo Airbnb nas favelas. A dimensão da moradia plataformizada não tem mais a barreira da formalidade. Ela não está só nos edifícios, mas também em habitações informais, o que é bastante grave e vai entrar em territórios em que as pessoas precisam da moradia para sobrevivência.
No Brasil está começando o processo de disputa entre moradia e locação temporária plataformizada, que na Europa e nos Estados Unidos já está avançado. Esse processo vai dar o que falar porque estamos perdendo as nossas cidades para uma habitação financeirizada e plataformizada – Isadora de Andrade Guerreiro
IHU – Segundo dados da Fundação João Pinheiro, 26 milhões de famílias brasileiras moravam em condições habitacionais inadequadas em 2023. Em um ano eleitoral, como trazer à pauta pública questões vinculadas à moradia, como a especulação imobiliária, o aumento dos aluguéis e as moradias plataformizadas? Quais temas relacionados à moradia precisariam estar no centro do debate eleitoral deste ano?
Isadora de Andrade Guerreiro – A moradia é um tema relevante, mas, infelizmente, acaba virando um tema das eleições municipais por conta da regulação urbanística ser um tema de responsabilidade municipal. No entanto, neste ano de eleições estaduais e federal, este é um tema importante porque a moradia recebe financiamento estadual e federal. A questão de programas públicos de aluguel é relevante para a pauta política. No entanto, nas propostas de governos à direita e à esquerda existe um consenso em relação às PPPs. Certamente, elas vão ser a pedra de toque das propostas vinculadas ao aluguel na política habitacional.
Vamos ver se esse tema vai aparecer no debate eleitoral, mas a grande crítica a ser feita é sobre o custo das unidades habitacionais a longo prazo para a política pública e a perda de terra pública para esse modelo de política. Vamos ver se esse debate aparece nas plataformas de propostas eleitorais, mas ainda falta discussão sobre o assunto. Há um certo consenso em relação às PPPs, que inclusive tem articulado a direita e a esquerda em torno da mesma plataforma de proposta, o que é um problema.
A dimensão da moradia plataformizada não tem mais a barreira da formalidade. Ela não está só nos edifícios, mas também em habitações informais, o que é bastante grave e vai entrar em territórios em que as pessoas precisam da moradia para sobrevivência – Isadora de Andrade Guerreiro
IHU – Há uma dificuldade social em pautar esses temas?
Isadora de Andrade Guerreiro – É difícil porque a discussão sobre PPPs e financiamentos para a moradia é muito abstrata para a população. A população quer casa, e aí é dado casa, mas a forma como isso é feito faz toda a diferença. A população só percebe isso quando está endividada. A população não tem dimensão de que morar caro, morar longe e morar ruim tem a ver com a forma como a política habitacional foi pensada e implantada. Essa é uma discussão difícil de fazer com a população. Estamos tentando realizar processos de formação com movimentos sociais e lideranças, para que possam entender melhor o significado das PPPs do ponto de vista político e das lutas por moradia, mas ainda estamos caminhando neste processo.
Fonte: Instituto Humanistas Unisinos
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